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Bronquiolite lota emergências pediátricas no inverno
Começa como um simples resfriado: nariz escorrendo, tosse leve e irritação. Em poucos dias, porém, alguns bebês passam a respirar com dificuldade, apresentam chiado no peito e recusam até mesmo as mamadas. É nesse momento que muitos pais descobrem a bronquiolite, uma das doenças respiratórias que mais preocupam pediatras durante o outono e o inverno. A enfermidade afeta mais de um terço dos bebês nos dois primeiros anos de vida e pode levar até 10% deles à hospitalização, especialmente nos meses mais frios do ano.
A bronquiolite viral aguda é uma inflamação dos bronquíolos, pequenas vias aéreas dos pulmões, que acomete principalmente bebês menores de dois anos, sobretudo bebês com menos de seis meses. O principal responsável é o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), causador de até 80% dos casos, segundo o Ministério da Saúde. O tema ganha relevância justamente em junho e julho, período em que a circulação dos vírus respiratórios aumenta significativamente em boa parte do país e provoca pressão sobre emergências pediátricas e unidades de internação infantil.
“A maior preocupação é que os bronquíolos dos bebês são muito estreitos. Quando ocorre inflamação e aumento da produção de secreção, a passagem do ar fica comprometida com muita rapidez”, explica a pediatra neonatologista Mirla Amorim, do Hospital Mater Dei Emec, em Feira de Santana.
Segundo a médica, a evolução do quadro pode surpreender os pais. “Muitas vezes o bebê inicia apenas com sintomas parecidos com os de um resfriado comum. Em 24 ou 48 horas pode surgir desconforto respiratório importante, exigindo avaliação médica imediata”, alerta.
Os números ajudam a explicar a preocupação dos especialistas. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 120.176 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por vírus respiratórios em 2025. Desse total, 43.946 foram causados pelo VSR. Mais de 36 mil hospitalizações ocorreram em bebês menores de dois anos, faixa etária mais vulnerável às complicações da bronquiolite.
Quem corre mais risco - Embora qualquer bebê possa desenvolver bronquiolite, alguns grupos exigem atenção redobrada. Prematuros, recém-nascidos, crianças com cardiopatias congênitas, doenças pulmonares crônicas ou imunidade comprometida apresentam maior risco de hospitalização e complicações.
“Esse público possui uma reserva respiratória menor e pode apresentar piora clínica de forma mais rápida. Por isso, qualquer sinal de dificuldade respiratória deve ser valorizado pelos pais e avaliado por um profissional de saúde”, orienta Mirla Amorim.
Sinais de gravidade - A dificuldade para respirar é o principal sinal de alerta. Os pais devem observar se o bebê apresenta respiração acelerada, afundamento das costelas ao respirar, gemência, chiado, lábios arroxeados ou dificuldade para se alimentar.
“A recusa das mamadas costuma ser um dos primeiros indícios de que o bebê não está conseguindo respirar adequadamente. Ele fica cansado para sugar e respirar ao mesmo tempo”, destaca a especialista. Outro fator que preocupa é a desidratação. Como respiram mais rápido e se alimentam menos, muitos lactentes podem perder peso e necessitar de suporte hospitalar.
Não existe remédio milagroso - Diferente do que muitos pais imaginam, a bronquiolite não costuma ser tratada com antibióticos. Como a doença é causada por vírus, o tratamento é predominantemente de suporte, incluindo hidratação, lavagem nasal frequente e monitoramento da oxigenação. Casos mais graves podem exigir internação, oxigenoterapia e acompanhamento intensivo.
“O principal tratamento é garantir que o bebê consiga respirar e se hidratar adequadamente. Por isso, a avaliação médica é fundamental para definir se o acompanhamento pode ser feito em casa ou se há necessidade de internação”, explica Mirla.
Prevenção ganha reforço - A boa notícia é que o Brasil ampliou recentemente as estratégias de prevenção contra o VSR. Além das medidas tradicionais — como higienização das mãos, evitar exposição de recém-nascidos a pessoas gripadas e ambientes fechados e manter a vacinação infantil em dia — o país passou a incorporar novas formas de proteção contra o vírus. Os resultados já começam a aparecer. Dados do Ministério da Saúde mostram que as internações por SRAG associada ao VSR em bebês menores de dois anos caíram 52% em comparação com 2023. Os óbitos também registraram redução de 63% no mesmo período.
Para Mirla Amorim, a principal orientação aos pais é não subestimar os sintomas respiratórios em bebês pequenos.“Quando falamos de bebês menores de um ano, especialmente nos primeiros seis meses de vida, observar a qualidade da respiração é tão importante quanto medir a temperatura. Em caso de dúvida, a avaliação médica precoce pode fazer toda a diferença”. E é justamente essa rapidez na identificação dos sinais de alerta que ajuda a transformar um susto comum do inverno em uma recuperação segura e sem complicações.
Por Cinthya Brandão
