Crianças interagem em áreas verdades; experiência é fundamental para a primeira infância (Foto / Divulgação)
Falta de áreas verdes, saneamento e espaços seguros compromete o desenvolvimento de crianças, alerta especialista
Enchentes, ondas de calor, poluição, falta de áreas verdes e crescimento urbano desordenado costumam aparecer no debate público como desafios ambientais. Mas seus impactos vão além da infraestrutura das cidades e atingem diretamente o desenvolvimento das crianças. Especialistas alertam que as condições do território onde uma criança cresce influenciam sua saúde, aprendizagem, bem-estar emocional e oportunidades de desenvolvimento desde os primeiros anos de vida.
Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e urbanas, fatores como acesso a áreas verdes, saneamento básico, moradia adequada e espaços seguros para convivência ajudam a determinar a qualidade de vida das famílias e podem afetar o desenvolvimento infantil de forma significativa.
“O ambiente em que a criança vive exerce forte influência sobre seu desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social. As áreas verdes funcionam como verdadeiros ambientes de desenvolvimento, pois oferecem oportunidades para brincar, explorar, aprender e conviver de forma saudável”, afirma Ana Luiza Buratto, consultora associada da OSC Avante e coordenadora-geral do projeto Primeira Infância Cidadã (PiC), realizado pela instituição em 21 municípios em parceria com a Petrobras, por meio do programa Petrobras Socioambiental.
Segundo a especialista, o contato com a natureza favorece o desenvolvimento da coordenação motora, do equilíbrio e da autonomia, além de estimular a curiosidade, a criatividade e a observação. Também contribui para a redução do estresse e para a promoção do bem-estar emocional.
Já o saneamento básico e a moradia adequada desempenham papel fundamental na proteção da saúde das crianças. “Um bom saneamento reduz a incidência de doenças como diarreia, hepatite e verminoses, diminui a mortalidade infantil e favorece hábitos adequados de higiene. Junto com uma moradia adequada, gera mais proteção, segurança e qualidade de vida para as crianças e suas famílias”, explica.
A preocupação se torna ainda mais urgente diante do aumento dos eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos em diversas regiões do país. Para Ana Luiza, crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos impactos dessas ocorrências.
“Poluição e eventos climáticos extremos podem representar graves ameaças não só ao desenvolvimento e à aprendizagem, mas à própria vida das crianças pequenas. Portanto, devem ser objeto de preocupação, cuidado e combate por parte da gestão municipal”, alerta.
Além dos desafios relacionados ao clima e à qualidade ambiental, a falta de espaços públicos adequados para o brincar e a convivência também afeta o desenvolvimento infantil. Sem ambientes seguros e acessíveis, crianças perdem oportunidades importantes de interação social, aprendizagem e exploração do mundo ao seu redor.
“A convivência com o outro é fundamental para o desenvolvimento integral na primeira infância. É por meio das relações que a criança constrói sua identidade e autoconfiança, fortalece vínculos, enriquece seu vocabulário, coopera, resolve conflitos e exercita a empatia e a solidariedade”, destaca.
O desafio de planejar cidades para as crianças
A experiência da OSC Avante em municípios de diferentes regiões do país aponta que alguns problemas se repetem quando o assunto é garantir territórios mais acolhedores para a infância. Entre eles estão a falta de investimento em áreas verdes, a expansão urbana sem planejamento adequado, problemas de mobilidade e acessibilidade, ausência de sinalização segura no entorno de escolas e unidades de saúde e a precariedade na manutenção de praças e parques.
Para a especialista, políticas ambientais e políticas voltadas à primeira infância precisam ser tratadas de forma integrada pelos municípios. “Identificar espaços adequados, desenvolver projetos, garantir orçamento para sua implementação, investir em acessos seguros e mobilizar a comunidade para colaborar com o cuidado e a manutenção desses ambientes são medidas fundamentais para construir cidades mais amigáveis às crianças”, afirma.
