Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
Burocracia digital e crédito fácil: André Naves alerta para o aumento da violência patrimonial contra idosos
No próximo
dia 15 de junho, o mundo volta a atenção para o Dia Mundial da
Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa. Longe de se
restringir às agressões físicas, a violência na terceira idade tem
ganhado contornos modernos e
silenciosos no Brasil: a violência patrimonial e o abuso financeiro. Com
a rápida e forçada digitalização do sistema bancário e de serviços
públicos, milhões de idosos enfrentam barreiras invisíveis que os tornam
alvos fáceis para golpes,
fraudes e para o fenômeno do superendividamento.
De acordo com dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, as denúncias de violência patrimonial e financeira contra idosos registram altas consistentes no Disque 100. A dinâmica atual da economia digitalizada agravou esse cenário. A exigência de aplicativos complexos, o fim do atendimento humanizado nas agências bancárias e a burocracia digital empurram o idoso para uma situação de extrema vulnerabilidade, muitas vezes obrigando-o a delegar suas senhas e decisões financeiras a terceiros.
Paralelamente, o assédio comercial das
instituições financeiras com a oferta predatória de empréstimos
consignados - a apenas "um clique" de distância em telas de celular mal
projetadas para a acessibilidade visual e cognitiva - tem comprometido a
renda de subsistência de uma parcela massiva da população idosa.
Para o Defensor Público Federal André Naves, especialista em direitos humanos e economia política, o fenômeno atual não é uma fatalidade, mas o reflexo de um etarismo estrutural que molda o mercado e o Estado.
"A digitalização de serviços públicos e
bancários deveria ser uma ferramenta de emancipação, mas se tornou um
labirinto de exclusão. Quando desenhamos uma sociedade que ignora as
características e limitações da população idosa, estamos
praticando uma violência institucional. O resultado é o isolamento
econômico e o superendividamento, que tiram a dignidade de quem passou a
vida inteira produzindo", afirma Naves.
O defensor ressalta que o debate precisa ir além da punição aos golpistas e alcançar a responsabilidade dos grandes agentes econômicos:
"O mercado financeiro precisa entender
que acessibilidade também é segurança. Simplificar processos, manter
canais humanos de atendimento e barrar o assédio do crédito consignado
predatório são deveres éticos e legais. Combater a violência
contra o idoso em 2026 exige, fundamentalmente, humanizar a tecnologia e
combater a burocracia que asfixia a terceira idade", conclui o
defensor.
Por Andreia Constâncio
