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ARTIGO - Revolução verde no Cerrado: novas cultivares de forrageiras garantem pastagens produtivas = Por Marcelo Ayres Carvalho
A pecuária moderna e eficiente exige uma mudança de paradigma urgente: abandonar práticas e tecnologias ultrapassadas para adotar o rigor técnico e agronômico e assim tratar a pastagem como uma lavoura.
O alicerce dessa transformação é a atualização das cultivares de forrageiras, substituindo capins obsoletos por cultivares modernas disponíveis no mercado. Esse novo conjunto de cultivares elite eleva o teto produtivo da pastagem, entregando maior resistência a estresses abióticos, como tolerância a cigarrinhas e à seca, por exemplo.
Na prática, a adoção dessas cultivares melhora a produtividade do pasto, a eficiência de pastejo, aumentando a taxa de lotação e o ganho de peso animal. O resultado é a maior produção de carne e leite e, consequentemente, melhor rentabilidade do negócio.
Essa mudança se torna ainda mais estratégica nesse momento em que o país implementa o Programa Caminho Verde Brasil, uma iniciativa do Governo Federal, coordenada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. O objetivo é recuperar 40 milhões de hectares de áreas de pastagens degradadas em dez anos, unindo produção agropecuária sustentável, uso de tecnologias modernas e acesso a crédito facilitado para produtores, para evitar a abertura de novas áreas pelo desmatamento.
Essa é uma oportunidade para que inovações tecnológicas, representadas pelas modernas cultivares de forrageiras, sejam amplamente adotadas e utilizadas.
O paradigma da pecuária
Enquanto o rebanho evoluiu com tecnologias como inseminação artificial em tempo fixo (IATF), vacinas avançadas e suplementação estratégica, as pastagens permanecem ancoradas em gramíneas do século passado, como as braquiárias tradicionais e o Panicum maximum, cutlivar Mombaça.
Hoje, temos mais de 15 cultivares de gramíneas e leguminosas forrageiras com genética avançada, desenvolvidas pela Embrapa e instituições parceiras. Elas oferecem maior produtividade, qualidade nutricional e resiliência climática.
Excelência em gramíneas: as opções do mercado
No grupo das braquiárias, as inovações atendem a diferentes necessidades de solo e manejo.
- BRS Piatã: ideal para sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) pela facilidade de manejo e qualidade da forragem.
- BRS Ipyporã: bom valor nutritivo e resistência à cigarrinha Mahanarva.
- BRS Tupi: para solos arenosos ou de baixa drenagem, supera a Brachiaria humidicola comum em 16,4% de ganho de peso vivo por hectare.
- BRS Paiaguás: proporciona mais de 45 quilos de ganho animal (peso vivo por hectare) por ano, além de maior acúmulo forrageiro seco.
- BRS Carinás: tolera solos ácidos com baixos teores de fósforo, oferece rápida cobertura e maior produção de biomassa e folhas por hectare, quando comparada à braquiarinha.
No gênero Panicum maximum, algumas opções são:
- BRS Tamani: porte baixo, alto valor nutritivo (elevados teores de proteína bruta e digestibilidade), boa produtividade e vigor, ideal para engorda de gado bovino no Cerrado.
- BRS Zuri: entrega 21,8 toneladas de massa seca por hectare por ano, superando os padrões de mercado em produtividade animal.
- BRS Quênia: seu porte intermediário e colmos finos facilitam o manejo de pastejo rotacionado e garante maior ganho médio diário (554 gramas por animal por dia).
Complementando as gramíneas, a nova cultivar de andropogon, BRS Sarandi, é recomendada para renovar áreas cultivadas com a antiga cultivar Planaltina. Com porte mais baixo e colmos mais finos, evita o "envaretamento" e facilita o controle do pastejo. Possui maior proporção de folhas (cerca de 60% da matéria seca total) e perfilhamento até três vezes superior, garantindo que animais Nelore atinjam ganhos de peso acima de um quilo por dia durante a estação das água.
O papel das leguminosas e os ganhos econômicos
As leguminosas forrageiras atuam como banco de proteína e complementam os pastos por atuarem na fixação biológica de nitrogênio (FBN), reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos. Entre as cultivares modernas, destacam-se:
- Estilosantes (BRS Bela, BRS Campo Grande, BRS Nuno): adaptadas a solos de baixa a média fertilidade e resistentes à seca e ao pastejo.
- Guandu (BRS Mandarim e BRS Guatã): arbustivo, é indicado para solos degradados.
- Amendoim forrageiro (BRS Mandobí, BRS Oquira): oferece cobertura densa contra erosão. Tem alta palatabilidade e proteína.
Convite à modernização sustentável
Investir em sementes certificadas e em novas cultivares não é luxo, mas uma estratégia vital para a sobrevivência no mercado. A adoção dessas tecnologias transforma os sistemas de produção.
Para exemplificar os ganhos que essas cultivares levam ao campo, vejamos o desempenho da BRS Zuri. Ela garante mais de 50 quilos de peso vivo por hectare por ano. Ao final de um ciclo de seis anos, isso representa um ganho extra para o pecuarista de R$ 6 mil por hectare, o equivalente a um arroba adicional por hectare.
Já a adoção de consórcio de gramínea e leguminosa, é possível aumentar a lotação do pasto em 20% a 30%, além de diminuir os custos com adubação nitrogenada.
Pecuaristas que diversificam e modernizam suas pastagens produzem rebanhos mais eficientes e garantem lucros estáveis. O Brasil, líder em pecuária tropical, merece pastagens à altura do seu boi moderno.
Os últimos lançamentos de forrageiras da Embrapa será tema de palestra no 11º Dia de Campo Expozebu, uma parceria da Embrapa, ABCZ e Baldan, no dia 27 de abril, com parte da programação do Zebu Connect Day, durante a Expozebu 2026.
SERVIÇO
Evento: 11º Dia de Campo Expozebu
Data: 27 de abril de 2026
Horário: 8h às 13h
Local: Estação Experimental Orestes Prata, Uberaba (MG)
Inscrição gratuitas (WhatsApp): (34) 99135-6861 / (34) 99945-1355
Marcelo Ayres Carvalho, pesquisador da Embrapa Cerrados.
