Foto: Igor Alisson - Inova Unicamp
Composto inédito com prata, quimioterápico e carvona mira câncer de pele profundo
Pesquisadores do Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), depositaram o pedido de uma nova patente que mostrou potencial aplicação no tratamento do câncer de pele, ainda em fase de pesquisa e desenvolvimento. A formulação associa um complexo de prata (Ag) ao quimioterápico 5-fluorouracil (5-FU) e à carvona, monoterpeno presente em óleos essenciais como hortelã e endro. Nos testes laboratoriais, a combinação com a carvona permitiu uma liberação duas vezes maior do princípio ativo, em relação ao composto sem o monoterpeno em um período de 48 horas, apontando para uma formulação capaz de atingir tumores em fases mais avançadas.
A tecnologia consiste em um sistema de liberação com potencial aplicação direta sobre lesões tumorais. Os ativos poderão ser incorporados em um gel, creme ou adesivo transdérmico, conforme a abordagem definida pela empresa interessada em levar a tecnologia ao mercado. A tecnologia está em fase pré-clínica. Testes em animais são o próximo passo antes de qualquer aplicação em seres humanos. O pedido de patente foi depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp para proteção da propriedade intelectual. A equipe busca parceiros industriais para avançar nas etapas seguintes de pesquisa e viabilizar o uso comercial da tecnologia.
O problema que motivou a pesquisa
A inquietação que deu origem à pesquisa veio das bancas de defesa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp. A professora Carmen Silvia Passos Lima, oncologista do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e coordenadora do Laboratório de Genética do Câncer (Lageca) da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), era presença frequente nas bancas e via compostos promissores para o tratamento do câncer que não avançavam para o desenvolvimento comercial. "Eu não entendia por que isso não chegava ao mercado e aos pacientes. Foi quando decidimos integrar diferentes áreas", conta.
O câncer de pele basocelular e espinocelular é o tipo mais incidente no Brasil. Apesar do baixo potencial de metástase, acomete áreas expostas ao sol, como rosto, nariz, orelhas e lábios. Um dos tratamentos disponíveis utiliza o 5-fluorouracil puro, mas ele tem limitações. "Esse medicamento exige que o paciente evite o sol e, por penetrar pouco na pele, é indicado apenas para tumores superficiais, o que é um problema no SUS, onde os casos frequentemente chegam em estágio avançado. Uma outra alternativa é o medicamento à base de cemiplimabe, mas esse imunobiológico tem alto custo, cerca de 50 mil reais por mês, e não é coberto pelo sistema público de saúde", afirma a oncologista.
Os tumores avançados exigem ressecção cirúrgica, extração parcial ou completa do tecido atingido, que pode resultar em deformidades permanentes. "Muitas vezes, o paciente perde partes do nariz, das orelhas, ou fica com cicatrizes profundas na boca ou em outras partes do corpo, o que provoca uma pressão social muito grande", destaca o professor Pedro Paulo Corbi, coordenador do Laboratório de Pesquisas em Química Bioinorgânica e Medicinal (LQBM) da Unicamp, vinculado ao Instituto de Química (IQ). Ao penetrar camadas mais profundas da pele do que o 5-fluorouracil convencional, o novo composto abre a possibilidade de tratar tumores avançados e reduzir a necessidade de cirurgias.
O papel do monoterpeno e os resultados preliminares
A carvona é a peça que diferencia essa formulação das alternativas existentes. A escolha veio do conhecimento acumulado no Laboratório de Fitoquímica, Farmacologia e Toxicologia Experimental (LaFTEx) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas. "A ideia surgiu da nossa expertise em produtos naturais e farmacologia e toxicologia experimental. Os monoterpenos têm uma característica especial: além das propriedades farmacológicas, vários deles são facilitadores de permeação, não se ligam quimicamente ao complexo, mas facilitam a entrada dele dentro da célula", explica a professora Ana Lucia Tasca Góis Ruiz, pesquisadora do LaFTEx.
Foi durante o mestrado de Daniele Daiane Affonso, no mesmo laboratório, que a carvona foi identificada como candidata promissora, após a estudante observar que a substância inibe a migração de queratinócitos, processo biológico relevante no desenvolvimento do câncer. "Quando juntei os dois compostos, vi que o Ag5FU com a carvona gerou um efeito sinérgico. A carvona potencializou a ação antitumoral do complexo metálico", relata Affonso. A diferença ficou evidente nos testes de liberação em membrana sintética: com o Ag5FU isolado, foram liberados 164 microgramas de prata por litro de solução; com a adição da carvona, esse valor subiu para 359 microgramas. "A combinação não só não interferiu no efeito antiproliferativo, como aumentou o efeito do complexo", reforça Góis Ruiz.
A prata foi selecionada por sua atividade antitumoral descrita na literatura. O 5-fluorouracil é um quimioterápico análogo a uma das bases do DNA, ou seja, se encaixa na cadeia genética da célula tumoral no lugar da base original. Quando isso acontece, altera a estrutura do DNA e desencadeia a morte celular, mecanismo que o consagrou como tratamento clínico para diferentes tipos de câncer.
A precisão na escolha dos componentes é fundamental, como explica Corbi. "Na química, nós temos substâncias que se combinam e outras que não se combinam. Esse conhecimento nos faz escolher a molécula certa para o metal certo, para que eles tenham afinidade entre eles. Compostos de prata tendem a se decompor rapidamente quando a combinação é inadequada: o metal se reduz, o produto escurece e se torna inutilizável".
A síntese foi realizada por Gabriele de Menezes Pereira, doutora pelo LQBM. "Partimos de um fármaco comercial que já tem potencial antiproliferativo. O que fizemos foi potencializá-lo com a complexação com um centro metálico", explica.
Da pesquisa básica à clínica
O grupo do CancerThera já percorreu esse caminho com outro composto patenteado, um metalofármaco com potencial terapêutico para o carcinoma de células escamosas cutâneo. O AgNMS, combinação de prata com o anti-inflamatório nimesulida, percorreu todas as etapas que o Ag5FU+carvona começa a trilhar.
O composto foi testado em linhagens de células cancerígenas e de pele saudável, com comprovação de seletividade, e depois em camundongos acoplado a um dispositivo de membrana de celulose bacteriana com adesivo, desenvolvido em parceria com pesquisadores da Universidade de Araraquara (Uniara).
Os resultados com esse primeiro composto mostraram redução ou desaparecimento dos tumores sem toxicidade para os animais, rendendo duas patentes, uma nacional e uma internacional. Em 2026, o AgNMS entrou na fase clínica 1 no HC da Unicamp com os primeiros pacientes com carcinoma de células escamosas, em cooperação com o Serviço de Dermatologia do HC, e segue agora para a fase clínica 2.
Próximos passos: da bancada ao paciente
A nova patente parte da mesma plataforma (complexos de prata), mas com componentes e mecanismos distintos. O próximo passo para o Ag5FU+carvona é repetir os testes in vitro, agora em pele de porco, o que permitirá medir a permeação das substâncias em condições mais próximas do corpo humano, e em seguida avançar para os testes em animais. A síntese do complexo é feita em etapa única, com alto rendimento e boa pureza, o que facilita a reprodução em escala, diz Pereira.
Para os pesquisadores que conduziram os experimentos, a possibilidade de ver o trabalho chegar à sociedade é o principal motor da pesquisa. "Quantas pessoas próximas já tiveram câncer de pele, fizeram uma ressecção cirúrgica, ficaram com uma cicatriz no rosto. É gratificante saber que a gente pode formular um fármaco que diminua o tamanho desse tumor e possa até evitar cirurgias", comenta Affonso.
A proteção intelectual foi realizada antes do término dos estudos, por orientação da Inova Unicamp, que esclareceu os pesquisadores sobre a possibilidade de depositar o pedido de patente com os dados disponíveis, preservando a novidade da invenção. Para chegar ao mercado, a tecnologia precisará de parceiros industriais para escalonamento da produção, registros sanitários junto à Anvisa, desenvolvimento de um produto e sua comercialização.
"O desenvolvimento aconteceu no laboratório e tem que ir para o estudo clínico. Primeiro em células, depois em animais e depois em humanos, nas fases 1 e 2. Se realmente for eficaz, aí a gente vai ter que entrar com as agências regulatórias e precisamos de parceiros industriais para que isso possa ser disponibilizado no mercado no futuro”, finaliza Passos Lima.
Como licenciar uma tecnologia da Unicamp
A Inova Unicamp disponibiliza no Portfólio de Tecnologias da Unicamp as invenções protegidas da Universidade. Empresas e instituições públicas ou privadas interessadas em licenciar esta tecnologia, com ou sem exclusividade, na forma de patentes ou know-how, podem entrar em contato com a Agência de Inovação pelo formulário de conexão com empresas disponível no site da Inova.
Para encontrar pesquisadores e especialistas para projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) com a Unicamp, acesse o Portfólio de Competências da Unicamp.
Por Ana Paula Palazi
