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Conselho lança Escola Antirracista de Nutrição e propõe novo olhar sobre alimentação, saúde e justiça social
O que chega à mesa da população brasileira vai muito além de escolhas individuais. Alimentação também é território, memória, cultura, acesso, desigualdade e pertencimento. Partindo dessa compreensão, o Conselho Regional de Nutrição da 5ª Região (CRN-5 – Bahia e Sergipe) lançou oficialmente a Escola Antirracista de Nutrição, projeto inédito que propõe ampliar o debate sobre racismo estrutural no campo da alimentação e da saúde. A estreia da iniciativa foi apresentada durante o Congresso Brasileiro de Nutrição (CONBRAN), realizado no mês de maio, e marca a necessidade de abrir uma discussão na sociedade para o enfrentamento de desigualdades raciais historicamente reproduzidas nos sistemas alimentares e nas práticas de cuidado em saúde. Sob o lema “Nutrição não é um território neutro”, a Escola Antirracista nasce como um espaço permanente de formação continuada para nutricionistas, técnicos em nutrição e dietética (TNDs), estudantes, gestores e profissionais da área da saúde. O objetivo é fortalecer práticas profissionais fundamentadas na equidade racial, no Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e na construção de sistemas alimentares mais justos e sustentáveis. “A proposta da Escola é reconhecer o racismo no campo da Nutrição e orientar ações de enfrentamento e superação. A alimentação é atravessada por fatores financeiros, sociais, culturais e midiáticos. Por isso, não pode ser compreendida como um território neutro”, destaca Roberta Castro , fiscal do CRN-5 e integrante da Escola Antirracista. A iniciativa foi desenvolvida com a consultoria especializada da nutricionista Bruna Crioula, pesquisadora alimentar e fundadora da Crioula Curadoria Alimentar. O projeto busca integrar o debate racial como elemento estruturante da prática profissional, abordando temas como nutricídio, racismo ambiental, insegurança alimentar e valorização da ancestralidade negra na formação da identidade alimentar brasileira. Segundo o coordenador técnico do Conselho e nutricionista Anderson Carvalho, a própria construção histórica da prescrição nutricional ainda carrega referências universalizantes e eurocentradas que, muitas vezes, ignoram os contextos culturais, sociais e econômicos da população negra. “Por muito tempo, parâmetros antropométricos utilizados como referência foram baseados em populações estadunidenses, com uma formação sócio-corporal diferente da nossa realidade no Brasil. Além disso, alimentos tradicionais ligados à cultura negra, como feijão, farinha e dendê, frequentemente são associados a estigmas de alimentação pesada ou não saudável. Isso contribui para o apagamento de memórias alimentares, saberes ancestrais e modos de preparo que fazem parte da identidade cultural brasileira”, explica. O profissional ressalta ainda que, muitas vezes, recomendações alimentares desconsideram fatores como renda, território e acesso aos alimentos, tornando o cuidado nutricional distante da realidade vivida pelas famílias. “Não é raro que a prescrição nutricional indique incompatibilidades com a condição financeira ou os hábitos alimentares das pessoas, produzindo culpa e sensação de fracasso terapêutico. A Escola Antirracista propõe justamente uma mudança de perspectiva ao compreender a alimentação como fenômeno social, histórico e cultural”, afirma. O projeto também chama atenção para o impacto do racismo estrutural sobre o acesso à alimentação adequada. De acordo com o Conselho, a população negra está mais exposta a desertos alimentares, regiões com pouca oferta de alimentos saudáveis, e a pântanos alimentares, marcados pelo excesso de produtos ultraprocessados e baixa disponibilidade de alimentos in natura. “A população negra enfrenta maior insegurança alimentar, precarização do trabalho e menor acesso a equipamentos públicos de abastecimento alimentar, como mercados populares e restaurantes comunitários. Existe hoje uma forte presença da indústria de ultraprocessados em territórios periféricos, associada à ausência de políticas públicas efetivas de soberania alimentar”, pontua Anderson Carvalho. Para além do aspecto técnico, a Escola Antirracista também propõe uma reflexão sobre os preconceitos e vieses inconscientes que atravessam o atendimento em saúde. A ideia é estimular uma prática profissional mais ética, empática e culturalmente sensível. “Muitas vezes, sem perceber, profissionais reproduzem julgamentos morais sobre corpos negros, pobreza, hábitos alimentares periféricos e modos de vida populares. O cuidado nutricional não pode se resumir ao domínio técnico sobre nutrientes e protocolos clínicos. É preciso reconhecer as trajetórias de vida, acolher diferenças e atuar criticamente diante das desigualdades raciais em saúde”, reforça o nutricionista. Curso de Formação: Inscrições Abertas Como parte das atividades da Escola Antirracista, o CRN-5 abriu inscrições para o curso “Nutrição, Antirracismo e Justiça Alimentar”. A formação possui carga horária de 20 horas, formato híbrido (online e presencial) e está dividida em cinco módulos que abordam desde políticas públicas voltadas à saúde da população negra até estratégias práticas de atuação antirracista no cotidiano profissional. . Além do curso, o projeto disponibiliza um acervo educativo permanente com e-book temático, materiais formativos e uma série audiovisual com conteúdos educativos nas redes sociais.
