Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - Segurança jurídica começa com boa governança, não com previsões perfeitas = Por José Maria Franco de Godoi Neto
Poucos conceitos
são tão invocados no ambiente de negócios quanto a segurança jurídica.
Ela aparece em debates sobre investimentos, reformas econômicas,
desenvolvimento e competitividade. Frequentemente, porém, o termo é
tratado como sinônimo de estabilidade absoluta — uma condição que, na
prática, não existe.
Toda atividade econômica está sujeita a
mudanças. Novas leis, alterações regulatórias, evolução da
jurisprudência, transformações tecnológicas e demandas sociais modificam
continuamente o ambiente em que empresas e investidores atuam. Esperar
um cenário completamente previsível é ignorar a própria dinâmica da
economia.
Isso não significa que a segurança jurídica tenha
perdido importância. Pelo contrário. Seu verdadeiro significado está na
existência de instituições capazes de oferecer regras claras, decisões
fundamentadas e mecanismos que permitam às empresas avaliar riscos e
planejar suas atividades com racionalidade.
Mais do que eliminar
a incerteza, a segurança jurídica deve permitir que ela seja
administrada. Essa distinção é fundamental. Organizações mais maduras
não constroem suas estratégias supondo que o ambiente permanecerá
inalterado. Elas trabalham com cenários, desenvolvem mecanismos de
governança, monitoram mudanças regulatórias e incorporam análises
jurídicas ao processo de tomada de decisão.
Esse comportamento
produz vantagens competitivas relevantes. Empresas preparadas respondem
mais rapidamente às mudanças, reduzem custos decorrentes de litígios,
preservam sua reputação e transmitem maior confiança a investidores,
parceiros comerciais e instituições financeiras.
Ao mesmo tempo,
o próprio Poder Público se beneficia quando há previsibilidade
institucional. Ambientes regulatórios transparentes, regras estáveis e
processos decisórios consistentes reduzem conflitos, estimulam
investimentos e favorecem o crescimento econômico de longo prazo.
Naturalmente,
divergências de interpretação continuarão existindo. Elas fazem parte
de qualquer Estado de Direito. O que diferencia um ambiente saudável é a
existência de mecanismos que permitam solucionar essas divergências com
coerência, transparência e respeito às garantias legais.
A
discussão sobre segurança jurídica, portanto, não deve se concentrar na
busca de um mundo sem riscos. Esse objetivo é inalcançável. O verdadeiro
desafio consiste em construir instituições e práticas de governança que
permitam administrar a incerteza de forma eficiente.
Empresas
que compreendem essa realidade deixam de enxergar a mudança como ameaça
permanente e passam a tratá-la como um elemento inerente ao ambiente de
negócios. A competitividade não nasce da ausência de riscos, mas da
capacidade de enfrentá-los com planejamento, informação qualificada e
decisões bem fundamentadas.
No cenário econômico atual, essa
talvez seja a definição mais moderna de segurança jurídica: não a
promessa de previsibilidade absoluta, mas a confiança de que mesmo
diante da incerteza será possível decidir, investir e crescer com
responsabilidade.
José Maria Franco de Godoi Neto – advogado, mestre em direito USP/SP, mestre em Gestão de Risco FEA/USP e especialização em Finanças pela FGV/SP, sócio do Franco de Godoi Advogados e membro fundador da STRUCTURA Investments.
