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Setenta anos depois, Grande Sertão: Veredas segue convocando leitores a viver o Brasil profundo
É nesse contexto que acontece a viagem em grupo “Grande Sertão: Veredas”, entre os dias 20 e 24 de maio, realizada pela produtora de viagens com conhecimento NomadRoots, que, além de viagens personalizadas, desenvolve jornadas imersivas a partir da literatura e cultura. Inspirada no universo rosiano, a proposta articula livro, paisagem e presença, convidando os participantes a se aproximarem do sertão não apenas como espaço físico, mas como experiência sensível e simbólica.
O percurso inclui áreas do Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, com acesso por caminhos exclusivos a partir da Pousada Trijunção, que estará reservada apenas para o grupo, e está localizada em um ponto singular do território brasileiro: no encontro entre Goiás, Minas Gerais e Bahia. Esse cruzamento geográfico, que dá nome ao lugar, funciona como um epicentro simbólico do sertão, onde fronteiras se diluem e o afastamento do cotidiano se transforma em possibilidade de reencontro. Estar ali é, para muitos, uma forma de se aproximar da fonte, do território, das escutas e das experiências que alimentaram a escrita de Guimarães Rosa.
A viagem começa em Brasília, não apenas como ponto de partida, mas como um portal simbólico que prepara, por contraste, para o que espera no coração do Cerrado brasileiro. Já, ao chegar na Pousada Trijunção, o tempo desacelera. Caminhadas, pausas, leituras e conversas se constroem em diálogo com o ambiente natural e com os modos de vida do Cerrado, apresentados também por guias especialistas que revelam camadas da paisagem que não se mostram à primeira vista.
Para quem já participou, a experiência não se repete, se renova. “Cada edição é diferente porque o sertão nunca se apresenta da mesma forma, e quem caminha também não. A luz, o clima e o tempo do dia transformam a paisagem, mas a experiência muda sobretudo conforme o estado interior de cada pessoa”, afirma o professor e escritor Chico Escorsim.
A jornalista Rafaella Silva, que também retornou ao sertão em mais de uma edição, compartilha percepção semelhante. “O livro está sempre presente, mas não como algo a ser explicado. Ele aparece nos intervalos, nas conversas espontâneas, nos detalhes do caminho. Há compreensões que só acontecem quando o corpo está em movimento”, observa.
Desde 2021, a experiência reúne grupos reduzidos de leitores em encontros marcados pela escuta, pela contemplação e pelo contato direto com o território. A edição de 2026 ganha ainda mais densidade ao coincidir com o ano de celebração dos 70 anos de Grande Sertão: Veredas, período em que a obra volta a ocupar o centro do debate cultural brasileiro, com novas edições, estudos críticos, projetos cênicos e o lançamento de uma ampla biografia de João Guimarães Rosa.
Mais do que uma releitura do romance, a proposta parte da compreensão de que o sertão rosiano não se encerra no livro. Ele se expande quando confrontado com o território que lhe deu origem, um espaço onde natureza, linguagem e humanidade se cruzam continuamente. “Sinto que passei um tempo em suspenso, fora desta dimensão em que estamos inseridos normalmente. A sensação para mim foi a de pertencimento. Ao grupo, à natureza, a cada minuto que vivi no sertão.” relata Zilda Fraletti, viajante que participou de uma das edições anteriores. Guimarães Rosa, com sua arte e genialidade nos mostrou que o sertão está dentro de nós”, conta.
A Travessia Literária Grande Sertão: Veredas, experiência
inspirada na obra de João Guimarães Rosa, acontece de 20 a 24 de maio de
2026. Mais informações estão disponíveis em nomadroots.
Por Marco Espanha
