Foto: Filipe Nascimento
ARTIGO - A transfobia como tecnologia social: pessoas trans entre a promessa da inovação e a repetição da exclusão = Por Judá Nunes
Ao discutir a noção de biopolítica, Michel Foucault nos oferece uma chave fundamental para compreender o funcionamento do poder nas sociedades modernas. A partir do século XVIII, o poder deixa de operar apenas pela ameaça da morte e passa a se organizar em torno da administração da vida: quem deve viver, como deve viver, em que condições e a serviço de quais interesses. A vida torna-se, então, objeto de gestão, regulação e produtividade.
Porém, nem toda vida cabe com facilidade nesse projeto. Quando a existência toma outros rumos – sai da linha, transiciona, se reinventa –, a estrutura de poder tenta capturá-la de volta. Corrigir, ajustar e enquadrar são verbos de ação comumente aplicados ao contexto de controle do poder. Em linhas gerais, é esse o movimento que instrumentaliza a transfobia como tecnologia social, não apenas como preconceito individual, mas como mecanismo estrutural de controle, que atravessa instituições, políticas públicas e, de forma muito contundente, o mundo do trabalho.
O mercado de trabalho, longe de ser um espaço neutro, é um dos principais dispositivos dessa engrenagem. É nele que a biopolítica se materializa de forma cotidiana, traduzindo normas abstratas em práticas concretas de inclusão e exclusão. Processos seletivos, critérios de empregabilidade, métricas de desempenho e expectativas de “postura profissional” não apenas organizam a produção econômica, mas definem quais corpos são percebidos como confiáveis, produtivos e legítimos. Ao operar dessa forma, o mercado não apenas reflete desigualdades sociais preexistentes, como também as produz, reforça e naturaliza.
Segundo o estudo “A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal”, publicado pelo Ipea em 2025, apenas 25% das pessoas transgêneros identificadas nos registros administrativos acessam o assalariamento formal; e, entre mulheres trans, esse percentual é ainda menor. Mesmo quando empregadas formalmente, pessoas trans recebem em média 32% a menos que a população geral. Esses dados não evidenciam apenas uma desigualdade econômica; eles expõem um mecanismo biopolítico em pleno funcionamento.
Em um contexto marcado pelo avanço da “plataformização” do trabalho, pela proliferação de contratos atípicos e pela falta de acesso a crédito formal para pessoas que “empreendem por necessidade”, a exclusão do emprego formal deixa de ser transitória e passa a se estruturar como destino social. Para pessoas trans, estar fora do assalariamento formal significa permanecer à margem dos sistemas de proteção, previdência e reconhecimento, ocupando uma zona de vida tolerada, mas não plenamente reconhecida. O risco que se desenha, como o próprio estudo do Ipea nos ajuda a identificar, não é apenas o da precarização individual, mas o da cristalização da exclusão, em que o futuro do trabalho, em vez de ampliar possibilidades, consolida trajetórias inteiras fora da cidadania laboral.
Outro dado relevante da pesquisa é a concentração das pessoas trans em setores de baixa remuneração e de menor prestígio social. Comércio, serviços administrativos e alimentação seguem sendo os principais destinos possíveis. Mesmo quando há alguma inserção em áreas associadas à inovação, como informação e comunicação, isso não garante melhores condições de trabalho.
É importante entender que a identidade de gênero é um marcador central das desigualdades no mercado de trabalho brasileiro. Quando apenas uma fração das pessoas trans acessa o assalariamento formal, o que está em jogo não é apenas exclusão econômica, mas a formação de um grupo estruturalmente empurrado para aquilo que o economista britânico Guy Standing descreve como o precariado: uma condição marcada pela instabilidade crônica, pela ausência de direitos e pela impossibilidade de planejar o próprio futuro. Ignorar esse dado ao projetar cenários futuros é aceitar, ainda que de forma tácita, um mercado que naturaliza a insegurança como destino para alguns corpos e a estabilidade como privilégio para outros.
Nesse sentido, a baixa inserção no assalariamento, combinada à concentração em trabalhos instáveis, aponta para um modelo que testa seus limites justamente sobre os corpos com menor proteção social. Antes de se tornar regra para muitos, a precarização costuma ser experimentada primeiro por quem já vive à margem. Para pessoas trans, isso significa a consolidação de trajetórias fora da proteção social, em que trabalhar não garante estabilidade, pertencimento ou futuro, apenas sobrevivência contínua.
O mercado de trabalho não irá se regular sozinho. As evidências mostram que, sem intervenção intencional, ele apenas reproduz e aprofunda desigualdades já existentes. Nesse contexto, diversidade, equidade e inclusão não são agenda moral nem estratégia de imagem, mas decisão estrutural de negócio: revisar como se contrata, avalia, remunera e retém pessoas é a única forma de romper com um futuro que insiste em excluir os mesmos corpos e de construir um mercado capaz de sustentar trabalho, inovação e vida ao mesmo tempo.
Judá Nunes é Especialista em Educação para Inclusão da Diversidade e pesquisadora de futuros. Licenciada em Teatro pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, atua desde 2016 na interseção entre educação, diversidade e impacto social. Reconhecida como LinkedIn Top Voices Orgulho 2022, desenvolve metodologias de educação transformativa voltadas à formação de lideranças e executivos, investigando como organizações podem se tornar mais inclusivas, éticas e preparadas para os futuros do trabalho.
