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Saúde mental na infância: um em cada cinco crianças e adolescentes têm algum transtorno mental no Brasil, aponta estudo
Um estudo brasileiro publicado este ano na BMJ Global Health, uma das revistas científicas de medicina mais respeitadas do mundo, traz um alerta para o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em outubro: entre 10,8% e 19,9% das crianças e adolescentes do país apresentam ao menos um transtorno mental. O maior índice vem de pesquisas feitas em Porto Alegre e São Paulo, com crianças e adolescentes em idade escolar.
A revisão sistemática, intitulada “A ciência da saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil: uma revisão sistemática de abrangência nacional e um compêndio de evidências”, reuniu 734 estudos, com 2.576 estimativas de prevalência, 912 instrumentos de avaliação distintos e 192 estudos de intervenção, com 173 ensaios. É o mapeamento mais amplo já feito sobre o tema no Brasil, país com cerca de 50 milhões de crianças e adolescentes. Os autores ressaltam que ainda não existe um estudo nacionalmente representativo com entrevistas clínicas, por isso os números vêm de regiões específicas.
Para a especialista em Neurodesenvolvimento Infantil e Neurociência da Aprendizagem e CEO da Clínica Estímulos, Tatiane Chagas, o dado precisa ser lido como um chamado à atenção. “O percentual mostra que o sofrimento psíquico na infância é frequente e não pode ser tratado como 'fase' ou 'frescura'. Quanto mais cedo é identificado, melhores são as chances de cuidado e de desenvolvimento saudável", pontua.
Fatores de risco
O estudo mostra que o cenário vai além dos diagnósticos e inclui a exposição a situações que aumentam o risco para a saúde mental. Entre adolescentes de 13 a 17 anos, 65,2% já consumiram álcool na vida, 14,3% usaram drogas ilícitas e 17,1% experimentaram cigarro eletrônico.
A violência também aparece com força. Segundo os dados, 40% sofreram bullying no último mês, 21% foram vítimas de violência física doméstica no último ano e 14,6% relataram abuso sexual ao longo da vida. A taxa de mortes por arma de fogo entre 10 e 14 anos é de 10,04 por 100 mil, em sua maioria homicídios de meninos negros.
O estudo aponta ainda um recorte racial. A discriminação racial, e não a raça em si, está associada a mais depressão, autolesão e uso de substâncias. "Crianças e adolescentes que convivem com violência, preconceito ou negligência carregam isso no corpo e no comportamento. O cuidado com a saúde mental precisa considerar o contexto em que esse jovem vive, na família, na escola e na comunidade", explica Tatiane.
Quando a criança é neurodivergente
Entre os fatores de risco apontados pelo estudo, o bullying merece atenção especial quando o assunto é neurodivergência. Se 40% dos adolescentes brasileiros relataram ter sofrido bullying no último mês, crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), dislexia e outras condições do neurodesenvolvimento costumam estar entre os alvos mais vulneráveis. Diferenças na comunicação, na interação social e no comportamento ainda são pouco compreendidas no ambiente escolar e podem transformar o dia a dia em um espaço de exclusão.
O impacto pode ser duplo. Além de lidar com os desafios próprios da condição, a criança neurodivergente que sofre violência fica mais exposta a ansiedade, depressão e isolamento, o que pode agravar quadros já existentes e dificultar o aprendizado. Para Tatiane Chagas, esse cenário exige um olhar que vá além do diagnóstico. "A criança neurodivergente não sofre apenas pelas dificuldades que tem, mas pela forma como o entorno reage a elas. Quando a escola e a família entendem o funcionamento dela e oferecem as adaptações necessárias, o risco de adoecimento emocional diminui de forma significativa".
O que fazer diante de sinais de perigo
Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar, alterações de sono e apetite, irritabilidade intensa, falas de desesperança e marcas de autolesão são sinais que merecem atenção. O primeiro passo, segundo a especialista, é acolher.
“O primeiro movimento deve ser escutar sem julgar e sem minimizar. Depois, buscar ajuda profissional, seja em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), com um pediatra ou um psicólogo, e envolver a escola, que é um espaço-chave de observação. Em situação de risco à vida, não espere: procure um serviço de urgência", orienta a profissional.
Na rede pública, o atendimento pode ser buscado nas UBSs e nos Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi). O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Por Bruno Ganem
