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Laboratório da Unicamp aproxima pesquisa acadêmica de demandas da indústria farmacêutica
Padrões usados pela indústria farmacêutica para controlar a qualidade e a segurança de medicamentos ainda dependem, em muitos casos, de fornecedores internacionais. No laboratório I-226 do Departamento de Química Orgânica,
do Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisadores trabalham para ampliar a produção nacional desses materiais.
O grupo coordenado pelo professor Airton Gonçalves Salles Junior estuda
a
degradação de fármacos e busca identificar, isolar ou sintetizar as
substâncias que surgem durante esse processo, criando referências que
permitem medir a presença dessas impurezas nos medicamentos.
As pesquisas e possibilidades de
aplicação desse conhecimento foram apresentadas à equipe da Agência de
Inovação Inova Unicamp durante uma visita ao laboratório, realizada como
parte das atividades do InovaLab, programa de aproximação com os
laboratórios da Universidade.
Entre os químicos, o estudo da
degradação de fármacos costuma ser associado à área ambiental, voltada à
remoção de resíduos de medicamentos presentes na natureza. No I-226, o
foco é outro: as transformações químicas que o próprio
medicamento sofre ao longo do tempo. À medida que o princípio ativo se
altera, podem surgir outras moléculas, chamadas produtos de degradação,
que precisam ser identificadas e quantificadas para garantir a qualidade
do produto e a segurança de quem
o consome.
Para isso, os pesquisadores submetem os
medicamentos a estudos que permitem identificar esses compostos e,
posteriormente, obtê-los de forma isolada. O laboratório utiliza duas estratégias principais, sendo uma delas o isolamento
por técnicas cromatográficas e a outra, síntese orgânica – área que integra a trajetória de pesquisa de Salles Junior.
Esses produtos isolados podem se tornar padrões analíticos, materiais de referência utilizados
para determinar quanto de uma impureza pode estar presente no
medicamento. A disponibilidade desses padrões permite construir métodos
de análise e verificar se a concentração dos produtos de degradação
permanece abaixo dos limites estabelecidos para garantir a segurança do
paciente.
Segundo o professor, a dificuldade está
justamente em obter essas moléculas, que geralmente aparecem em
concentrações muito pequenas. Além disso, muitos dos padrões utilizados atualmente são importados, o que pode elevar
custos e aumentar o prazo para que cheguem às empresas brasileiras.
“Precisamos começar a oferecer esses
padrões nacionalmente. Temos o know-how para fazer isso e já estamos
conversando com startups. O interesse é conseguir fornecer para as
farmacêuticas em um prazo e custos mais acessíveis”, afirma
Salles Junior.
Pesquisa voltada à segurança dos medicamentos
O laboratório começou a ampliar os
estudos com medicamentos a partir de 2014. Desde então, o grupo já
investigou diferentes classes de fármacos, entre elas
anti-inflamatórios, antialérgicos, analgésicos e corticoides. Também
desenvolve
pesquisas relacionadas a moléculas que podem formar impurezas como as
nitrosaminas.
Um dos primeiros trabalhos envolveu um
glicocorticoide comercial, classe de medicamentos sintéticos que imitam o
cortisol, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais, e tem função
anti-inflamatória. Durante estudos de degradação
forçada, a equipe identificou produtos que ainda não haviam sido relatados na literatura científica. O resultado abriu caminho para investigações sobre a estrutura dessas moléculas e sua possível toxicidade.
A pesquisa parte de uma questão que
acompanha todos os medicamentos: as substâncias sofrem transformações
químicas ao longo do tempo e, dentro do prazo de validade, pequenas
quantidades desses produtos podem estar presentes. Por isso, os
pesquisadores precisam saber quais moléculas foram formadas, em qual concentração aparecem e qual risco podem representar.
Para medicamentos de uso contínuo, o
controle desses compostos ganha ainda mais peso. Como o paciente pode
consumir o produto por longos períodos, mesmo pequenas concentrações de
substâncias formadas durante a degradação precisam ser
monitoradas. Por isso, o laboratório combina a identificação e a quantificação dessas moléculas com avaliações toxicológicas, que ajudam a verificar se permanecem dentro dos limites considerados seguros.
Atualmente, o laboratório reúne 14
estudantes. A maioria trabalha em temas relacionados à degradação de
medicamentos, e há também pesquisa em síntese orgânica. As investigações
incluem ainda diferentes desdobramentos do tema, como
interações entre fármacos e excipientes (substâncias que compõem um
medicamento, mas não têm efeito terapêutico) e outros estudos
relacionados à estabilidade dos produtos farmacêuticos.
Formação aliada às demandas atuais da indústria
O contato com o setor farmacêutico
também contribui para a formação dos estudantes e para a definição de
parte das questões científicas investigadas. Muitos integrantes do grupo
atuam profissionalmente na área enquanto desenvolvem mestrado
ou doutorado na Unicamp. Com isso, problemas observados na rotina das empresas passam a ser estudados no laboratório, com o rigor metodológico e a infraestrutura de pesquisa da Universidade.
“Existem problemas que ficam dentro
das empresas e nunca chegam ao meio acadêmico. Nosso objetivo é nos
colocar à disposição para resolver essas questões em conjunto e, com
isso, gerar novos conhecimentos”, explica o professor.
Nessa aproximação, a Inova Unicamp atua
no apoio à estratégia e à negociação com empresas, contribuindo para
estruturar as parcerias e resguardar os interesses da Universidade e de
seus pesquisadores. A Agência ajuda a criar condições para
que essas colaborações avancem de forma segura e possam se desdobrar em
projetos, transferência de conhecimento e novas oportunidades de
inovação.
“A interação efetiva com a indústria
é uma parte muito importante do trabalho. Não depende apenas da
química. Exige conversa, construção de confiança e colaboração para que a
pesquisa consiga responder a problemas concretos”,
finaliza Salles Junior.
InovaLab aborda caminhos para parcerias e conexões
A conexão entre pesquisa e mercado
esteve no centro da visita da Inova Unicamp ao I-226, que ocorreu no
âmbito do InovaLab. O projeto de conexão promovido pela Agência busca
conhecer as competências dos laboratórios da Universidade e
identificar oportunidades relacionadas à propriedade intelectual,
transferência de tecnologia, empreendedorismo e potenciais parcerias com
empresas e outras instituições.
No caso do laboratório, o contato com a
Inova Unicamp começou a partir de dúvidas relacionadas à colaboração com
profissionais da indústria e à necessidade de instrumentos de
confidencialidade. Depois de reuniões virtuais, a equipe realizou
uma visita ao laboratório para conhecer as pesquisas e discutir
possibilidades de atuação conjunta.
As conversas também ampliaram a atenção
do grupo para a avaliação de resultados de pesquisa antes de sua
publicação, especialmente quando houver possibilidade de proteção de
propriedade intelectual, além da gestão do know-how
associado aos processos utilizados para obter e caracterizar produtos de degradação.
