Foto: Andreia Tarelow / Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - O avanço da IA e os limites da humanidade = Por Ives Gandra
O empresário Elon Musk declarou
recentemente que, em até cinco anos, a inteligência artificial ultrapassará a
capacidade humana. Por enquanto, prevalece a impressão de que dominamos a
tecnologia e de que ela só pode fazer aquilo que o homem programa, pautando-se
por relações lógicas, matemáticas e físicas. Trata-se, afinal, de um sistema
projetado para processar, com extrema rapidez, soluções que a mente humana tem
dificuldade de alcançar.
O dado que mais impressiona — e que justifica a observação de Musk — é o ritmo
vertiginoso dessa evolução. Não nos referimos apenas ao aumento do poder
computacional, mas a uma mudança qualitativa: quando a computação deixa de ser
mera ferramenta de cálculo para se tornar um agente decisório autônomo, a
discussão ultrapassa a engenharia e alcança a dimensão ético-existencial.
Essa
aceleração não se restringe apenas ao aumento do poder de processamento
computacional, mas indica uma mudança qualitativa na própria forma como a
tecnologia interfere na realidade. Quando a computação deixa de ser uma mera
ferramenta de cálculo para se tornar um agente decisório autônomo, a discussão
ultrapassa a engenharia e alcança a dimensão ético-existencial do próprio ser
humano.
Em sua
encíclica “Magnifica humanitas”, o Papa Leão XIV já apontou a importância e os
riscos da transformação social pela tecnologia. Ele demonstrou que esses
sistemas evoluem continuamente. A inteligência artificial é mais rápida no
trabalho, não faz greves nem gera encargos sociais. Seus alertas éticos mostram
que corremos riscos gravíssimos se não houver cautela, pois a substituição da
mão de obra humana pela eficiência produtiva da máquina pode gerar impac tos
sociais irreparáveis. Configura-se, assim, um
dilema em que o lucro econômico imediato e a eficiência algorítmica atropelam a
dignidade do trabalho e a coesão social.
No momento em que alcançarmos integrações também de natureza química — na mesma velocidade em que hoje ocorrem as de natureza digital —, haverá ainda mais motivos para preocupação. Afinal, a aceleração com que a inteligência artificial ganha terreno, conquista novos campos e consolida estruturas é impressionante.
Trata-se
do ponto em que a tecnologia deixa de interagir apenas com circuitos de silício
para se conectar diretamente com a biologia e com os processos neuroquímicos do
cérebro humano. Ao atingirmos integrações de natureza química – na mesma
velocidade em que hoje ocorrem as de ordem digital —, essa fronteira híbrida,
embora promissora para a medicina e a biotecnologia, abrirá precedentes
inéditos sobre o controle do comportamento e a manipulação da própria
consciência. É por ess a razão que os alertas sobre a velocidade com que a inteligência
artificial ganha terreno e consolida estruturas se tornam tão urgentes.
Vale a pena
recordar que o escritor e filósofo Umberto Eco, no final do século passado —
quando a inteligência artificial consistia apenas em computadores mais rápidos
na solução de determinados problemas —, já dizia que essa celeridade tornaria o
homem descartável no futuro.
A
discussão, portanto, ultrapassa os limites da tecnologia: o problema não está
apenas no que as máquinas serão capazes de fazer, mas no que deixaremos de
exigir do ser humano. Se a eficiência e a rapidez passarem a ser critérios
suficientes para determinar o valor de uma atividade, corremos o risco de medir
o homem pelos mesmos parâmetros que utilizamos para avaliar uma máquina.
O trabalho,
entretanto, não representa apenas uma forma de produzir riqueza. Ele também
participa da construção da identidade, da autonomia e do sentimento de
pertencimento do indivíduo à sociedade. A substituição crescente do trabalho
humano pela tecnologia, portanto, pode produzir consequências que vão muito
além da economia: poderá atingir a própria percepção que o homem tem de sua
utilidade e de seu lugar no mundo.
Por outro
lado, em suas diretrizes éticas, o Papa Leão XIV, em sua encíclica,
alerta que corremos riscos gravíssimos de ordem social se não houver
cautela. Afinal, a substituição da mão de obra humana pela eficiência produtiva
da inteligência artificial pode gerar grandes e irreparáveis impactos na vida
humana.
Essa
transformação alcança também atividades intelectuais que sempre dependeram do
discernimento humano. No Direito, por exemplo, a inteligência artificial já
pode realizar, em segundos, pesquisas e cruzamentos de informações que
exigiriam horas de trabalho. Mas a decisão jurídica não se resume à localização
da norma ou do precedente mais adequado. Interpretar, ponderar valores, avaliar
circunstâncias concretas e assumir a responsabilidade pelas consequências de
uma decisão são atividades que não podem ser reduzidas à velocidade de processamento
de uma máquina. Quanto maior for a capacidade da inteligência artificial,
portanto, maior será a necessidade de preservar a responsabilidade humana sobre
aquilo que não pode ser decidido apenas pela eficiência.
Precisamos
decidir quais limites jurídicos, econômicos e éticos serão impostos à
inteligência artificial antes que a capacidade tecnológica determine, por si
mesma, o nosso papel na sociedade. A previsão de Elon Musk – vinda de quem
enriqueceu ao explorar o avanço tecnológico — deve servir como um alarme
definitivo. Se não nos prepararmos para impor balizas à automação,
arriscamo-nos a caminhar para cenários de profunda desumanização, onde a ficção
retratada em produções como no filme “O Exterminador do Futuro” deixará de ser
um aviso distante para se tornar a nossa realidade.
Ives Gandra da Silva Martins é
professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O
Estado de S. Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme),
Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª
Região (TRF-1), professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San
Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das
Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da
Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da
Fecomercio-SP, ex-presidente da Academia Paulis ta de Letras (APL) e do
Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
