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ARTIGO - ENEM: entre a escolha, a cobrança e o medo de decepcionar = Por Hamilton Assis
Todos os anos, milhares de jovens brasileiros se aproximam do Exame Nacional do Ensino Médio carregando muito mais do que canetas, documentos e conteúdos acumulados ao longo da vida escolar. Eles levam para a prova expectativas familiares, cobranças sociais, inseguranças, comparações, dúvidas sobre a escolha profissional e, frequentemente, um profundo medo de decepcionar.
Para muitos deles, o ENEM deixou de representar apenas uma possibilidade de acesso ao Ensino Superior. Tornou-se uma espécie de julgamento antecipado do próprio valor. Uma prova que parece definir quem é inteligente, quem se esforçou, quem terá futuro e quem “ficará para trás”.
Essa percepção, evidentemente, não corresponde à realidade. Nenhuma prova é capaz de medir integralmente a inteligência, o potencial ou o valor de uma pessoa. Entretanto, é assim que muitos jovens vivenciam esse processo. Por isso, quando falamos sobre preparação para o ENEM, não estamos tratando apenas de conteúdos, técnicas de estudo ou estratégias para resolver questões. Estamos falando também de escolhas, medos, expectativas e feridas emocionais.
Ainda muito jovens, estudantes são frequentemente questionados: “Já escolheu o que vai fazer?”, “Vai cursar o quê?”, “Pretende estudar onde?”, “Será que sua nota vai dar?”, “E se você não conseguir?”. Embora pareçam naturais, essas perguntas podem adquirir um peso imenso para quem ainda está tentando descobrir quem é, quais são suas habilidades, o que deseja e que possibilidades concretas possui.
Escolher uma profissão não significa simplesmente apontar o nome de um curso em uma lista. É uma decisão que exige autoconhecimento, informações sobre as carreiras, compreensão da realidade econômica, conhecimento das instituições e das formas de ingresso, além de alguma capacidade para distinguir entre desejo, idealização, influência externa e projeto possível.
Quantos jovens conhecem verdadeiramente o cotidiano da profissão que dizem querer seguir? Quantos tiveram acesso a uma orientação profissional consistente? Quantos conhecem as possibilidades existentes para além dos cursos mais comentados? Quantos escolheram livremente e quantos apenas aprenderam a repetir o sonho que suas famílias construíram para eles?
Em muitos casos, pede-se uma resposta definitiva a quem ainda nem teve a oportunidade de formular adequadamente as perguntas. Isso não significa que os jovens sejam incapazes de escolher ou que devam ser afastados das responsabilidades relacionadas ao próprio futuro. Eles precisam participar ativamente dessa construção. Precisam estudar, experimentar, pesquisar, decidir e assumir compromissos. Mas existe uma diferença profunda entre estimular a autonomia e abandonar alguém diante de uma decisão complexa: responsabilidade não pode ser confundida com solidão!
Ao acompanhar jovens que se preparam para o ENEM, tenho percebido que muitos não sofrem apenas pela quantidade de conteúdos que precisam estudar. Sofrem porque não sabem por onde começar. Porque têm a sensação de que já estão atrasados. Porque observam colegas aparentemente mais preparados e concluem que não possuem capacidade. Porque começam um planejamento, não conseguem mantê-lo e passam a acreditar que lhes falta inteligência, força de vontade ou disciplina.
Alguns vivem presos em um ciclo doloroso: estabelecem uma rotina impossível, não conseguem cumpri-la, sentem culpa, tentam compensar com uma exigência ainda maior e, pouco tempo depois, paralisam novamente. Quanto mais se cobram, menos conseguem agir. Quanto menos agem, mais se sentem incapazes.
Há jovens sendo chamados de preguiçosos quando, na verdade, estão perdidos; chamados de desinteressados quando estão assustados; e cobrados por não avançarem quando ninguém lhes ensinou a construir um caminho possível.
Isso não quer dizer que toda dificuldade possa ser explicada pela ansiedade, pelo medo ou pela falta de orientação. Há situações em que é necessário desenvolver responsabilidade, constância e disposição para enfrentar aquilo que precisa ser feito. Acolher não significa eliminar limites, compromissos ou consequências. Mas responsabilizar um jovem também não deveria significar ignorar tudo o que interfere em sua capacidade de agir.
Nesse processo, as famílias ocupam um lugar decisivo. Em geral, pais e responsáveis desejam que seus filhos tenham oportunidades melhores e não enfrentem as mesmas dificuldades que eles enfrentaram. O problema é que desejar o melhor para alguém não significa, necessariamente, saber como ajudá-lo.
Na tentativa de incentivar, algumas famílias pressionam; para provocar uma reação, comparam; para evitar o fracasso, ameaçam; para transmitir segurança, decidem pelo jovem. Falam repetidamente sobre notas, aprovações e profissões, mas raramente perguntam sobre medos, dúvidas ou dificuldades.
Quantas vezes perguntamos a um jovem qual curso ele escolheu? E quantas vezes perguntamos o que ele sente quando pensa no próprio futuro?
A comparação merece atenção especial. O estudante é comparado com o irmão que conseguiu, com o primo que passou, com o colega que estuda mais, com o filho do vizinho que “já sabe o que quer”. Essas comparações não costumam produzir clareza. Em muitos casos, produzem vergonha, ressentimento e a sensação de que qualquer resultado será insuficiente.
A escola também precisa participar dessa reflexão! Durante anos, os estudantes recebem conteúdos, realizam atividades e fazem avaliações. Ao se aproximarem do fim do Ensino Médio, passam a ouvir que precisam intensificar os estudos, resolver muitas questões e alcançar um bom desempenho. No entanto, preparar alguém para o ENEM não pode significar apenas aumentar o volume de conteúdos e cobranças.
É necessário ensinar como a prova funciona, como interpretar seus enunciados, como administrar o tempo, como identificar dificuldades e como organizar uma rotina realista. Também é preciso apresentar cursos, profissões, instituições e diferentes possibilidades de ingresso no Ensino Superior. Mais do que mandar estudar, precisamos ensinar esses jovens a estudar com estratégia, autonomia e sentido.
A escola não pode oferecer uma formação insuficiente durante anos e, no momento decisivo, transferir toda a responsabilidade ao estudante, repetindo que o resultado “só depende dele”.
Essa crítica, contudo, não pode desconsiderar as dificuldades enfrentadas pelas próprias escolas. Professores trabalham com turmas numerosas, limitações estruturais, sobrecarga, falta de recursos e estudantes que chegam ao Ensino Médio carregando defasagens acumuladas. Muitas famílias também vivem sob pressões econômicas e emocionais e não receberam informações que lhes permitam orientar adequadamente seus filhos.
Não se trata, portanto, de encontrar um culpado único. O problema é coletivo, e a responsabilidade também precisa ser.
Outro discurso que precisa ser revisto é o de que “basta se esforçar”. O esforço é indispensável, mas não age no vazio. Um estudante com boa formação anterior, acesso à internet, ambiente adequado, apoio familiar e acompanhamento pedagógico não parte do mesmo lugar que outro jovem obrigado a conciliar os estudos com o trabalho, as tarefas domésticas, as dificuldades financeiras, as defasagens de aprendizagem e a instabilidade emocional.
Reconhecer essas desigualdades não significa negar a capacidade de superação de ninguém. Significa apenas abandonar a ilusão de que todos participam da mesma disputa nas mesmas condições.
Além disso, esforço sem direção pode produzir muito cansaço e pouco resultado. Há estudantes que passam horas diante dos livros, acumulam videoaulas e materiais, mas não sabem definir prioridades, acompanhar a própria evolução ou transformar erros em aprendizagem. Quando o resultado não aparece, concluem que são incapazes (quando, muitas vezes, o problema está menos na capacidade e mais na ausência de método e orientação). Por isso, precisamos construir outros caminhos.
As famílias podem substituir parte da cobrança por escuta, presença e orientação. As escolas podem criar espaços reais de preparação, não apenas para a prova, mas também para as escolhas que a acompanham. Os estudantes podem ser ensinados a estabelecer metas possíveis, reconhecer dificuldades e avançar gradualmente. A orientação profissional pode deixar de ser uma atividade eventual e tornar-se parte efetiva da formação. E o cuidado emocional precisa ser compreendido como condição para o desenvolvimento, não como desculpa para fugir das responsabilidades.
Também precisamos lembrar aos jovens que escolher um curso não significa determinar, de uma vez por todas, o restante da vida. Escolhas podem ser revistas e caminhos podem mudar. Uma reprovação não encerra uma trajetória, assim como uma aprovação não resolve automaticamente todas as incertezas.
Sobretudo, precisamos ajudá-los a compreender que o resultado do ENEM é importante, mas não constitui um veredito sobre quem são.
Essa discussão é necessária e urgente! Não existe fórmula mágica capaz de eliminar todas as angústias que envolvem o ENEM, a escolha profissional e a entrada na vida adulta. Existem, porém, formas mais humanas, responsáveis e eficientes de atravessar esse processo.
Antes de perguntarmos por que tantos jovens não apresentam os resultados que esperamos, talvez devêssemos perguntar se nós (famílias, escolas e sociedade) temos oferecido as condições, a orientação e o acolhimento necessários para que eles consigam construí-los.
O jovem precisa assumir responsabilidade pelo próprio futuro. Mas não deveria ser obrigado a construí-lo sozinho, cercado por cobranças, comparações e medo de decepcionar.
Hamilton Assis é Professor Especialista em Aprendizagem e ENEM
