Piramutabas em mercado de Santa Maria de Nieva, no Peru. Foto: Gustavo Faleiros/InfoAmazonia
COP15 aprova plano transnacional para conservar bagres ameaçados na Amazônia
O
Brasil junto à Bolívia, Colômbia, Equador e Peru deverão adotar um
plano de ação para conservar os bagres migradores da Amazônia. A decisão
é histórica, ocorre 30 anos após o início das discussões sobre o tema, e
foi tomada nesta quinta-feira (26), durante a 15ª Conferência das
Partes (COP15) da Convenção das Nações Unidas para as Espécies
Migratórias (CMS), prevista para terminar no próximo domingo (29), em
Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
A
medida busca salvar duas espécies de bagre que são essenciais para a
economia e a ecologia da Amazônia: a dourada e a piramutaba. Ambas estão
incluídas entre as espécies vulneráveis e ameaçadas de extinção na
lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Dados recentes também revelam que essas populações de bagres estão
prestes a desaparecer em partes da bacia do Amazonas.
A
dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) pode atingir até 1,5 metro de
comprimento e é considerada a espécie de água doce que percorre as
maiores distâncias: ao longo do ciclo de vida, pode viajar até 11 mil
quilômetros. A desova ocorre nas cabeceiras dos rios amazônicos, na
transição entre os Andes e a floresta. Os filhotes seguem até o estuário
da foz do rio Amazonas, onde se alimentam até atingir a idade adulta,
quando então iniciam a viagem de volta ao sopé das montanhas.
A
secretária nacional de Registro e Monitoramento e Pesquisa do
Ministério da Pesca e Aquicultura, Carolina Doria, afirma que o plano
aprovado durante a COP15 é um marco importante para garantir a
cooperação entre os países: “agora é a hora de colocar a mão na massa”,
enfatiza.
Na
conferência, a proposta de conservação partiu do Brasil e foi
articulada com outros quatro países. A aprovação no plenário da
convenção da ONU foi facilitada por uma série de encontros entre a
sociedade civil, governos e pescadores desses países, o que ajudou a
construir consenso em torno da iniciativa.
O plano de ação é um dos principais instrumentos para incentivar políticas transnacionais voltadas a espécies migratórias. Na COP anterior, realizada em 2024 no Uzbequistão, uma resolução já havia incluído a dourada e a piramutaba no Anexo II da CMS. Ao reconhecer que essas espécies estavam ameaçadas, a convenção abriu caminho para a adoção de uma estratégia transnacional de conservação.
Bagres na mira
Em 1995, os países amazônicos já tinham realizado reuniões para regular a pesca de bagres na Amazônia. Sem resultados, viram um avanço acelerado da pesca industrial e com isso uma queda acentuada nos estoques pesqueiros dessas espécies.
O
problema foi agravado com a construção das hidrelétricas de Santo
Antônio e Jirau no rio Madeira a partir de 2008. As usinas romperam com a
conectividade entre a Amazônia e os Andes, afetando o curso por onde
ocorria a migração. De acordo com estudos coordenados pela FaunÁgua,
organização boliviana de pesquisa, a redução de capturas de dourada no
Alto Madeira é de 93%.
“O
estado desta espécie na Bolívia já pode ser considerado crítico”, diz o
pesquisador Paul Van Damme, ao contar que, neste momento, ele e colegas
trabalham para elevar o status de gravidade na lista vermelha das
espécies ameaçadas no país. “O que estamos vendo no Alto Madeira já é o
colapso das populações da dourada”.
Apesar das ameaças, um estudo de 2020, liderado pelo pesquisador Fabrice Duponchelle, calculou que a pesca dos peixes lisos, como também são conhecidos os bagres, representa 93% de todos os desembarques em portos pesqueiros na região amazônica, gerando uma renda anual de US$ 436 milhões. A dourada e a piramutaba representam 23% do total capturado.
Por Gustavo Faleiros
