Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
Páscoa além do chocolate: cacau da sociobioeconomia movimenta milhões e fortalece comunidades no Brasil
Com a chegada da Páscoa, o consumo de chocolate cresce em todo o país — mas, por trás desse mercado, o cacau revela uma cadeia produtiva que vai muito além das prateleiras. No Brasil, o avanço da sociobioeconomia tem reposicionado o produto como um ativo estratégico para gerar renda, fortalecer comunidades e manter a floresta em pé.
Dados recentes da Conexsus – Instituto Conexões Sustentáveis mostram que negócios comunitários apoiados pela organização comercializam mais de 6,6 mil toneladas de produtos da sociobioeconomia em 2025, gerando cerca de R$ 130 milhões em faturamento. O cacau está entre os principais produtos dessa cadeia e integra o grupo dos itens de maior comercialização — ao lado de produtos como açaí e castanha-do-Brasil —, com destaque pelo seu alto valor econômico e potencial de inserção em mercados sustentáveis. Ainda assim, o cenário recente acende um alerta: o mercado do cacau é marcado por oscilações e, do último ano para cá, a queda nos preços tem preocupado produtores e cooperativas, com impacto direto na renda das comunidades.
“A cultura do cacau vem ganhando cada vez mais relevância na sociobioeconomia por sua capacidade de gerar renda e, ao mesmo tempo, contribuir para a conservação das florestas. Em regiões como a Amazônia, é cultivado em sistemas agroflorestais, que permitem a consorciação com outras espécies e a adaptação às diferentes realidades dos produtores, fortalecendo a produção local e valorizando o conhecimento das comunidades. Esse modelo mostra que é possível produzir de forma sustentável, conectando o campo a mercados que reconhecem essa origem. Ao mesmo tempo, o fortalecimento da cadeia ainda depende de políticas públicas, especialmente da ampliação do acesso ao crédito e a serviços de apoio produtivo. Muitos produtores enfrentam dificuldades para acessar financiamento adequado, o que limita o crescimento das atividades. Nesse cenário, a atuação da Conexsus, por meio da Crediambiental — que combina crédito orientado e assistência técnica —, é fundamental para superar esses desafios e manter o cacau como vetor de desenvolvimento para comunidades em diferentes regiões do país,” informou João Victor - Mentor de Crédito Rural.
A atuação da Conexsus tem sido central para estruturar essa produção. A organização apoia cooperativas, associações e agricultores familiares com acesso a crédito, assistência técnica e conexão com mercados, permitindo que o cacau deixe de ser apenas uma commodity e passe a integrar cadeias produtivas mais sustentáveis e organizadas.
Grande parte dessa produção está concentrada na Amazônia, que responde por cerca de 44% dos produtos comercializados pelos negócios apoiados. Nesses territórios, o cacau é cultivado em sistemas agroflorestais, convivendo com outras espécies e contribuindo para a conservação da biodiversidade, a recuperação do solo e a resiliência climática.
Outro polo importante é o sul da Bahia, onde o cultivo tradicional em sistema cabruca — sob a sombra da Mata Atlântica — tem sido fortalecido por iniciativas de crédito orientado. Na região, a Conexsus já viabilizou mais de R$1 milhão em crédito para pequenos produtores de cacau, beneficiando diretamente agricultores familiares e ampliando a capacidade produtiva local.
Apesar do crescimento, a cadeia ainda enfrenta desafios estruturais. O acesso ao crédito rural segue sendo um dos principais entraves para produtores da sociobioeconomia, especialmente devido a barreiras burocráticas e dificuldades de acesso a serviços financeiros em regiões mais isoladas. Nesse contexto, iniciativas de crédito orientado e programas como o Pronaf têm papel fundamental para destravar o desenvolvimento dessas atividades.
Quando esse crédito chega de forma orientada para os negócios comunitários, ele permite que as cooperativas realizem a compra das amêndoas de cacau diretamente dos produtores, muitas vezes à vista, fortalecendo a base produtiva. Além disso, cria condições para incentivar a produção de amêndoas com mais qualidade e sustentabilidade, valorizando quem investe em boas práticas de manejo, fermentação e secagem.
Na prática, já acompanhamos cooperativas que, com acesso a crédito e apoio na gestão financeira e comercialização, passaram a estruturar melhor a cadeia e a estabelecer critérios de qualidade das amêndoas. Isso permite acessar mercados mais justos e exigentes, melhorar a renda dos produtores e fortalecer toda a cadeia do cacau nos territórios. Além disso, observa-se um movimento crescente de verticalização, com negócios que passam a produzir chocolate e acessar mercados com maior valor agregado.
Outro avanço importante na cadeia do cacau é a crescente participação e protagonismo das mulheres, que vêm assumindo papéis cada vez mais estratégicos na produção, gestão e comercialização. Esse movimento tem sido acompanhado por processos de qualificação e reconhecimento do trabalho feminino, refletindo diretamente na melhoria da qualidade das amêndoas. Não por acaso, amêndoas produzidas na região da Transamazônica, no Pará, têm se destacado internacionalmente, sendo reconhecidas como as melhores do mundo, evidenciando que o fortalecimento das mulheres na cadeia também está associado à excelência do cacau na Amazônia.
Mais do que um produto agrícola, o cacau representa hoje um elo entre conservação ambiental e geração de renda. Ao integrar sistemas produtivos sustentáveis e valorizar o conhecimento local, a sociobioeconomia aponta caminhos concretos para um modelo de desenvolvimento mais inclusivo e resiliente.
Neste período de Páscoa, a origem do chocolate ganha um novo significado. Escolher produtos que valorizam cadeias sustentáveis e comunitárias é também reconhecer o papel de quem está na base da produção — e contribuir para que o cacau siga sendo não apenas fonte de renda, mas também instrumento de preservação das florestas brasileiras.
Por Myllena Amorim
