Foto: Igor Alisson
Tecnologia da Unicamp pode reduzir infecções associadas a implantes de titânio
Implantes de titânio são utilizados em diferentes procedimentos ortopédicos devido, entre outras características, à sua rigidez mais próxima à do tecido ósseo do que a de materiais convencionais, como o aço. Essa propriedade pode favorecer o desempenho das próteses no organismo. Um dos problemas associados a esses dispositivos, porém, ocorre ainda antes de sua plena integração ao corpo: a contaminação bacteriana durante ou após a cirurgia pode levar à formação de biofilmes (camadas viscosas de bactérias e fungos) sobre a superfície do implante e comprometer o procedimento, podendo levar à rejeição dos implantes.
Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Engenharia Mecânica
(FEM) da Unicamp busca enfrentar esse problema modificando apenas a
superfície de ligas de titânio utilizadas em implantes ortopédicos e
odontológicos. A proposta combina cobre e prata, metais conhecidos por
sua atividade antimicrobiana, a uma etapa de
processamento a laser. A estratégia procura acrescentar uma função à
superfície sem alterar as propriedades mecânicas do material que compõem
o interior da prótese. O resultado foi
protegido por meio de um depósito de pedido e patente realizado com
estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp.
A pesquisa surgiu da trajetória de Kaio
Niitsu Campo, docente na FEM e um dos inventores responsáveis pelo
desenvolvimento. “As ligas de titânio são bastante notórias na aplicação
biomédica, como implantes ortopédicos”, explica. Segundo
ele, uma das razões para o uso do material é justamente seu módulo de elasticidade, ou seja, sua rigidez, mais próxima à do osso.
A incorporação de cobre ou prata
diretamente à liga, entretanto, poderia modificar suas propriedades
mecânicas. A alternativa encontrada pela equipe foi concentrar esses
elementos na camada mais externa do implante, região que fica em contato
com o ambiente biológico. “A proposta foi modificar apenas a superfície da liga,
justamente na região de interesse para dificultar a formação de
biofilmes, preservando, ao mesmo tempo, as propriedades e a integridade
do material em
seu interior”, relata Campo.
Laser promove integração dos metais à liga no implante
A fabricação da superfície modificada envolve três etapas. Primeiro, uma fina camada de cobre é depositada sobre o titânio por eletrodeposição, processo que utiliza corrente elétrica para formar um revestimento metálico. Em seguida, parte do cobre é substituída por prata por meio de uma reação de substituição galvânica.
Nessa etapa, a amostra é colocada em uma solução de nitrato de prata. Como a prata é mais nobre que o cobre, ocorre uma reação em que o cobre da superfície é corroído e a prata se deposita em seu lugar. O resultado são
estruturas microscópicas de prata com formato semelhante ao de pequenas árvores, chamadas nanodendritas.
A prata, no entanto, não adere de
maneira suficientemente estável à superfície nessa etapa. É aí que entra
o processamento a laser. O feixe funde uma fina camada do material,
promovendo a incorporação do cobre e da prata ao próprio
titânio.
A diferença é importante porque, em vez
de formar apenas um revestimento sobre o implante, o processo promove
uma ligação metalúrgica entre os elementos adicionados e o substrato.
“Com a aplicação do laser, o cobre e a prata são
incorporados ao material, estabelecendo uma integração metalúrgica com o
substrato.
Dessa forma, reduzimos o risco de delaminação, ou seja, de desprendimento de uma camada superficial que tenha sido apenas depositada sobre o
implante”, explica o docente.
Outro aspecto estudado pela equipe é a
velocidade da etapa a laser. A fusão da superfície ocorre em poucos
segundos, característica que pode favorecer a produtividade caso o
processo venha a ser levado à escala industrial.
A rota também utiliza precursores relativamente baratos.
Na etapa de deposição, são empregados sulfato de cobre e nitrato de
prata. Campo ressalta que o laser representa o componente de maior
custo, mas considera que o
investimento é compatível com aplicações industriais, uma vez que
equipamentos desse tipo já são empregados em processos de fabricação de
peças metálicas.
Validação biológica dos implantes requer equipe multidisciplinar
Até o momento, o trabalho concentrou-se principalmente no desenvolvimento e na otimização da rota de fabricação da superfície modificada. A etapa seguinte é verificar se a combinação de cobre e prata incorporada ao titânio apresenta, de fato, o efeito antibacteriano esperado em condições biológicas.
“Apesar do potencial da tecnologia, ainda existem desafios importantes a serem superados”, afirma Campo. Entre eles estão a comprovação experimental da atividade antibacteriana e a identificação das condições que
proporcionam o melhor desempenho biológico.
A equipe também investiga os mecanismos envolvidos na eventual ação contra as bactérias.
Uma das possibilidades é a liberação de íons dos metais; outra envolve
mecanismos de morte por contato direto com a superfície
modificada. O processamento a laser, por sua vez, precisa ser avaliado
quanto aos efeitos provocados pela rápida solidificação do material, que
pode levar, por exemplo, à formação de trincas.
Os experimentos reúnem pesquisadores de diferentes áreas da Unicamp.
A etapa de processamento a laser foi realizada no Laboratório de
Metalurgia Física, da FEM, em colaboração com o grupo do professor
Rubens Caram. Os testes
biológicos são conduzidos em parceria com a professora Laís Pellizzer,
da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade.
O foco da pesquisa é a aplicação biomédica,
especialmente em implantes ortopédicos e odontológicos. No entanto, a
equipe também realizou testes de corrosão, nos quais a superfície
modificada apresentou desempenho
ligeiramente superior ao do substrato sem tratamento. O resultado sugere
que a estratégia pode ter interesse em outras situações nas quais a
resistência à corrosão do titânio seja uma propriedade relevante.
A técnica de modificação superficial a
laser poderia ainda ser adaptada para incorporar outros elementos e
conferir diferentes características ao material. Entre as aplicações
mencionadas pelo inventor estão os setores químico,
aeronáutico e automobilístico. Essas possibilidades, entretanto, ainda não foram investigadas de forma aprofundada e necessitam de pesquisas complementares.
Tecnologia de novos implantes pode avançar com ajuda de parceiros
Para avançar às próximas etapas de
desenvolvimento e avaliar seu desempenho em condições mais próximas das
encontradas no mercado, a tecnologia precisa de parceiros interessados em sua aplicação.
O licenciamento é um dos
caminhos para que empresas possam acessar a solução, investir em seu
desenvolvimento complementar e contribuir para etapas como novos testes,
adequações e validações necessárias antes de uma eventual aplicação
comercial.
Na Unicamp, os processos de
transferência de tecnologias desenvolvidas na Universidade são
conduzidos pela Inova Unicamp, Agência de Inovação responsável por
aproximar a propriedade intelectual protegida da Universidade de
empresas e outras
instituições interessadas em transformá-las em soluções aplicadas e
inovação.
Empresas e instituições interessadas em conhecer mais sobre a tecnologia de modificação superficial de ligas de titânio podem entrar em contato com a Inova Unicamp por meio do formulário de conexão com empresas disponível no site da Agência.
A partir desse contato, é possível obter mais informações sobre a
tecnologia e avaliar oportunidades de parceria e licenciamento.
Por Isabele Scavassa – Inova Unicamp
