Após três meses na fila, Isabela, de 11 meses, recebeu um novo coração e ganhou uma nova chance de vida. Foto: Luiza Yasumoto/Hospital Pequeno Príncipe
Doação de órgãos: crianças enfrentam desafios ainda maiores na espera por um transplante
Mais de 49
mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil, e cerca de três mil
morrem todos os anos enquanto esperam por um órgão, segundo o Ministério
da Saúde. Entre as crianças, o
desafio é ainda maior. Em 2025, o país realizou 586 transplantes de
órgãos pediátricos, mas 50 crianças morreram enquanto aguardavam na
fila, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT). A recusa
familiar é um dos principais obstáculos
para ampliar a doação — em cerca de 45% dos casos, a doação não é
autorizada. Entre os doadores pediátricos também houve uma redução nos
últimos anos: foram 274 em 2023 e 211 em 2025.
Por isso,
neste Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de
órgãos, o Hospital Pequeno Príncipe, maior e mais completo hospital
pediátrico do país, reforça a importância de conversar sobre o assunto
com a
família.
“Famílias
que já conversaram sobre o assunto tendem a autorizar a doação com mais
tranquilidade e segurança. Quando a população é bem informada, tendo
suas dúvidas e mitos esclarecidos antes de um momento tão difícil, o
número de recusas
cai e, consequentemente, mais transplantes podem ser realizados”,
enfatiza o cirurgião responsável pelo Serviço de Transplante Cardíaco do
Hospital Pequeno Príncipe, Fábio Navarro.
Desafio ainda maior nos transplantes pediátricos
Um doador
pode salvar até oito vidas, segundo o Ministério da Saúde. No entanto,
quando se trata de crianças, existe uma dificuldade adicional: encontrar
um órgão compatível com o tamanho do receptor. Isso reduz o número de
doadores disponíveis
e pode tornar a espera ainda mais longa.
“Os
transplantes pediátricos enfrentam um desafio adicional em relação aos
adultos. Órgãos infantis costumam ser compatíveis, em geral, com
receptores de tamanho semelhante, o que significa que o número de
doadores possíveis é bem menor. Isso
faz com que crianças, na maioria das vezes, esperem mais tempo na fila
por um órgão de tamanho adequado”, explica Navarro.
E o tempo
tem um peso ainda maior para quem é criança. “Para uma criança na fila
de espera, um transplante pode significar a diferença entre continuar
hospitalizada e voltar a ter uma infância normal, ir à escola, brincar e
crescer com mais
saúde. Para a família, é o fim de uma angústia diária e o início de uma
nova fase marcada por alegria e gratidão”, destaca o especialista.
A doação de
órgãos de uma pessoa falecida só pode ocorrer após a autorização da
família. Por isso, conversar previamente sobre a decisão de doar é
fundamental para que, em um momento de luto, os familiares tenham
segurança para autorizar a
doação. “Falar sobre isso ajuda a desfazer mitos, antecipa este tema
sensível às famílias, para que estas, tendo maior conhecimento, possam
tomar uma decisão pela doação de órgãos, mesmo em um momento de muita
dor. Quanto mais se fala em
doação de órgãos, mais vidas podem ser salvas”, finaliza o cirurgião.
Uma nova chance para Isabela
A história
da pequena Isabela, de 11 meses, mostra o impacto que a doação de órgãos
pode ter na vida de uma criança e de toda a sua família. Ainda durante a
gestação, uma alteração identificada em um exame levou os médicos a
investigar a
possibilidade de um tumor. Com apenas um dia de vida, Isabela foi
encaminhada ao Hospital Pequeno Príncipe. Após 30 dias na UTI Neonatal e
uma série de exames, a família recebeu o diagnóstico de um fibroma
cardíaco inoperável. A única
possibilidade de tratamento seria um transplante cardíaco.
“Em um
primeiro momento, foi um susto. Quando fui me aprofundar, passei a
entender o que era o transplante e que teríamos que ficar na fila para
encontrarmos um doador”, conta a mãe, Caroline Antônia da Silva de
Paula.
Foram três
meses de espera até que a família recebeu a notícia que tanto aguardava:
havia chegado um coração compatível para Isabela. “Não achei que fosse
chegar tão rápido. Foi uma felicidade gigante. Após o transplante, posso
ver que minha
filha está mais ativa. Hoje, ela vive”, relata a mãe.
Para a
família de Isabela, a chegada do novo coração representou uma
oportunidade de recomeçar. “A doação de órgãos é um ato de amor, de
esperança e de empatia com o próximo. Hoje, saio com a minha filha com
vida. Minha Isabela terá um
futuro”, resume Caroline.
Referência
Há 37 anos, o Pequeno Príncipe realiza transplante de órgãos e tecidos pediátricos. Em 2025, foram realizados 308 procedimentos. Ao todo, 44 de órgãos sólidos (coração, rim e fígado), 34 de válvula cardíaca, 163 de tecido ósseo e 67 de medula óssea. Neste ano, até julho, o Pequeno Príncipe já fez 194 transplantes, consolidando a organização como um dos centros de referência para esse tipo de procedimento no país.
Fonte: Ascom/HPP
