Oficina de escuta do Avança Chapada em Morro do Chapéu / Foto: Gustavo Rozário
Chapada debate futuro diante da falta de mão de obra, crédito e oportunidades para jovens
Fazer com que os jovens permaneçam no campo, encontrar trabalhadores qualificados e criar condições para que os negócios cresçam sem esbarrar em falta de infraestrutura ou crédito. Esses foram alguns dos desafios mais citados durante as oficinas de escuta do projeto Avança Chapada, realizadas em Mucugê, Piatã, Seabra e Morro do Chapéu. Os encontros reuniram mais de 100 empresários, lideranças e representantes de setores produtivos dos 24 municípios da Chapada Diamantina para ajudar a construir uma agenda de desenvolvimento para a região.
Apesar do potencial econômico associado ao turismo, à agropecuária e aos novos empreendimentos que surgem no território, o diagnóstico construído nas oficinas mostra que muitos obstáculos continuam se repetindo em diferentes municípios. A dificuldade de fortalecer o associativismo, a escassez de mão de obra qualificada, os problemas de infraestrutura, a burocracia para acessar crédito e os desafios logísticos apareceram entre as principais preocupações.
O Avança Chapada é uma realização do Sistema FIEB, por meio do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e financiamento da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial). O programa busca mobilizar órgãos com diferentes competências e perspectivas em torno de uma agenda comum de desenvolvimento produtivo sustentável para a Chapada Diamantina, tendo como ponto de partida a identificação de demandas pela voz de quem vive o dia a dia da região.
Novas gerações - Sebastiana Maria de Oliveira, presidente da Associação Comunitária do Povoado de Cruz (Acapam), em Palmeiras, acompanha de perto uma das inquietações mais presentes nas comunidades rurais: a saída dos jovens em busca de oportunidades fora da Chapada, que ela relaciona à desinformação em torno da cultura do associativismo, modelo que fortalece iniciativas coletivas e pode ampliar o horizonte de oportunidades para as novas gerações.
Para a líder comunitária, o associativismo precisa ser trabalhado desde a infância para que crianças e jovens compreendam o valor da cooperação e da atuação coletiva. Com experiência na criação e fortalecimento de associações comunitárias, ela reforça que a visão individualista dificulta a mobilização das comunidades em torno de objetivos comuns. “Escolas e políticas públicas devem formar novas gerações mais preparadas para atuar de forma organizada em benefício dos territórios onde vivem. É preciso haver políticas voltadas para a inclusão da juventude no associativismo. Se a gente acaba o campo, acaba a cidade”, alerta.
Coordenador técnico de Turismo da Secretaria de Cultura e Turismo de Morro do Chapéu, Franco William Novaes Dourado concorda que a atuação tímida do associativismo é um dos entraves para o fortalecimento do território. Segundo ele, muitos produtores e empreendedores continuam atuando de forma isolada, mesmo diante de desafios que poderiam ser enfrentados de maneira conjunta.
“Quando as pessoas estão organizadas, fica mais fácil buscar apoio, recursos, incentivos, fazer compras coletivas a preços mais baixos e encontrar soluções para problemas comuns. Uma pessoa sozinha encontra muito mais dificuldades”, pontuou. Professor do Centro Territorial de Educação Profissional (CETEP) Chapada Diamantina II, Franco também vê na profissionalização dos jovens seguida da retenção dessa mão de obra como um caminho para reduzir o êxodo da juventude.
"Acredito que o cenário está começando a mudar em Morro do Chapéu. No CETEP, trabalhamos muito a questão da empregabilidade, qualificando os jovens para que possam atuar profissionalmente na própria região. Muitos começam por meio de estágios e acabam sendo efetivados em empresas ligadas ao turismo e ao roteiro enogastronômico sensorial, que envolve vinícolas, queijarias, charcutaria, flores e óleos essenciais, um segmento que vem crescendo e gerando novas oportunidades no município".
Soluções improvisadas - O desafio de manter os jovens na região também impacta em outro entrave: preencher as vagas de trabalho já existentes. Empresários de diferentes setores relataram dificuldades para contratar profissionais qualificados, desde operadores de máquinas e técnicos especializados até trabalhadores da construção civil, manutenção, hospedagem e serviços ligados ao turismo.
Para Rafael Bezerra, sócio da Vinícola Reconvexo, investir na formação de mão de obra local é uma condição indispensável para que o desenvolvimento econômico beneficie efetivamente a população da Chapada. “Seria fácil trazer profissionais já formados de outras regiões, mas a nossa opção sempre foi contratar pessoas daqui. O desafio é criar oportunidades de qualificação para que esse desenvolvimento permaneça na Chapada”, esclareceu.
O empresário também chama atenção para um problema que atravessa diferentes atividades econômicas da região: a logística. “É impressionante a dificuldade para entregar produtos em cidades próximas. Muitas vezes precisamos recorrer a soluções improvisadas para fazer os vinhos de Morro do Chapéu chegarem aos clientes de Lençóis por exemplo”, relata.
As reclamações sobre infraestrutura apareceram em todas as oficinas. Estradas vicinais em más condições, transporte intermunicipal insuficiente, fornecimento deficitário de internet, má gestão dos resíduos sólidos e a coleta de lixo e oscilações frequentes no fornecimento de energia elétrica foram apontados como obstáculos que afetam desde pequenos produtores até grandes empreendimentos voltados para o turismo.
Caminhos possíveis - Fundador da Coríntia Mobiliário Esculpido em Pedra, o arquiteto português Guilherme Falcão Vieira Babo desenvolve peças que unem design, arte e rochas ornamentais da Chapada Diamantina. A partir do aproveitamento de materiais que seriam descartados pelas pedreiras, ele transforma a pedra em mobiliário e objetos utilitários de alto valor agregado.
Mais do que criar produtos, Guilherme busca contribuir para a construção de uma identidade contemporânea para a região por meio do design e da arquitetura, tendo como horizonte a inserção dessas peças em mercados nacionais e internacionais, um caminho que, segundo ele, ainda esbarra em desafios ligados ao ambiente de negócios e à competitividade.
Assim como outros empreendedores da região, Guilherme esbarra em entraves como acesso ao crédito para compra de maquinário e tecnologia de ponta. Nas oficinas, empresários e produtores de diferentes setores produtivos relataram falta de informação e orientação sobre as linhas de financiamento, burocracia, demora na análise dos pedidos e dificuldades para atender às exigências das instituições financeiras.
“Nós queremos estar a par do topo do mercado em termos tecnológicos, mas é extremamente complicado, seja pelas burocracias dos bancos, seja pelas dificuldades e exigências de garantias. Então, tem sempre uma rédea que nos puxa para baixo, enquanto nós estamos a olhar o horizonte. Iniciativas como esta, que destravam esses quadros, são importantes para conseguirmos ascender onde queremos”.
Leitura do território - Integrante do comitê formado por 15 instituições parceiras do programa Avança Chapada, o Sebrae participou das oficinas de escuta com o objetivo de identificar, diretamente nos territórios, as necessidades e os desafios enfrentados pelos setores produtivos da região. Segundo a gerente adjunta do Sebrae Regional Irecê, Léa Cerqueira, esse trabalho já começa a produzir efeitos concretos ao evidenciar demandas que exigem atuação conjunta entre diferentes organizações. “Esse processo de escuta já começa a gerar desdobramentos práticos, ao evidenciar demandas que exigem articulação entre diferentes instituições, especialmente na área de formação de mão de obra”, afirmou.
A Gerente de Negócios do IEL, Sandra Pasta, reforçou a importância das oficinas de escuta para a construção da agenda produtiva. “O objetivo das oficinas foi identificar os principais desafios enfrentados pelo setor produtivo do território da Chapada Diamantina. Durante os quatro encontros, ouvimos mais de cem empresários, lideranças e representantes de associações e cooperativas locais, e até o final de julho realizaremos cerca de 80 entrevistas individuais para complementar as informações levantadas. Não existe desenvolvimento sustentável sem ouvir as pessoas que constroem a Chapada todos os dias. São elas que conhecem os desafios do território, mas também suas potencialidades e oportunidades. É a partir dessa escuta que construiremos uma agenda capaz de transformar vocações em resultados concretos para a região.”
As etapas participativas do programa Avança Chapada terão continuidade em agosto, quando representantes dos setores produtivos da região voltarão a se reunir para um novo ciclo de encontros. Com base nas demandas e desafios identificados, o objetivo será construir coletivamente propostas, soluções e estratégias de implementação. A previsão de lançamento da agenda produtiva já pactuada com as instituições parceiras é entre novembro e dezembro.
Por Cilene Brito
