Demonstração do Laboratório Móvel de Irrigação (LMI)
Semana Nacional da Agricultura Irrigada encerra programação com demonstração do Laboratório Móvel de Irrigação na Embrapa Cerrados
O papel da irrigação na produção de alimentos, na segurança hídrica e no desenvolvimento sustentável das regiões produtoras está no centro dos debates da 1ª Semana Nacional da Agricultura Irrigada, realizada de 15 a 19 de junho. Promovida pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), a iniciativa reúne especialistas, representantes de instituições públicas e do setor produtivo para discutir desafios e oportunidades relacionados ao uso sustentável da água na agricultura.
A programação será encerrada nesta sexta-feira (19), com uma visita à Embrapa Cerrados (Planaltina-DF), onde será realizada uma demonstração de campo do Laboratório Móvel de Irrigação (LMI). Durante a visita, será feita uma aferição do pivô central da Unidade, permitindo aos participantes acompanhar, na prática, o funcionamento dos equipamentos e das metodologias utilizadas para avaliar a eficiência dos sistemas e promover o uso racional da água. O projeto é financiado com recursos da cobrança pelo uso da água na Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba.
O LMI consiste em uma unidade móvel equipada com tecnologias avançadas de medição e diagnóstico, capaz de realizar análises detalhadas de sistemas de irrigação em propriedades rurais. Cada unidade conta com veículos adaptados e equipamentos especializados, como sensores de umidade, medidores de pressão e analisadores hidráulicos, que permitem avaliações precisas da eficiência hídrica e energética dos sistemas. A partir dos diagnósticos, os técnicos elaboram recomendações personalizadas para otimizar o uso da água e melhorar o desempenho operacional das propriedades.
Setor Agropecuário na Gestão da Água
Na terça-feira (16), a Embrapa Cerrados assinou um Protocolo de Intenções para a construção de um Acordo de Cooperação Técnica destinado à ampliação das atividades do LMI no Distrito Federal. A assinatura ocorreu durante o 4º Workshop Setor Agropecuário na Gestão da Água, promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) como parte da programação da 1ª Semana Nacional da Agricultura Irrigada.
O documento foi firmado pelo presidente do CBH Paranaíba, João Ricardo Raiser; pelo secretário nacional de Segurança Hídrica do MIDR, Giuseppe Seca; pela coordenadora de Integração da ABHA Gestão de Águas, Sândra Lúcia Vieira; e pelo chefe-geral da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck. O público que participou do workshop pôde conhecer o projeto do Laboratório Móvel de Irrigação, montado no estacionamento da sede do Sistema CNA/Senar (foto).
“Algumas visões inadequadas vão no sentido de que a gestão da água e a agricultura, os setores usuários de uma forma geral, são concorrentes. Talvez porque grande parte das questões ou até o funcionamento que se viu historicamente tem sido através dos instrumentos de regulação, que é uma ponta do sistema. O que tem que existir na verdade é uma grande parceria. Precisamos decidir de forma integrada e conjunta como utilizar, proteger e conservar esse recurso. Esse projeto do laboratório marca isso”, afirmou o presidente do CBH Paranaíba, João Ricardo Raiser.
Durante o painel Cenário Climático e Soluções Baseadas na Natureza (SBN) Aplicadas ao Agro, Jorge Werneck destacou que, embora o termo seja relativamente novo, as SBNs reúnem práticas já consolidadas no meio rural, como a conservação do solo, a proteção de nascentes, o manejo sustentável da água e a preservação da biodiversidade.“São soluções inspiradas nos processos naturais e que contribuem para a produção de alimentos, a gestão da água e a manutenção dos serviços ecossistêmicos”, afirmou.
Segundo o pesquisador, a crescente pressão sobre os recursos hídricos torna a agricultura uma peça central nesse debate. Estimativas indicam que, até 2050, 68% da população mundial viverá em áreas urbanas, aumentando a disputa pelo uso da água entre cidades e produção de alimentos. “A cidade depende do campo para garantir o abastecimento de água. Por isso, as áreas rurais precisam ser geridas estrategicamente como sistemas produtores de água”, destacou.
Entre as práticas adotadas em uma fazenda produtora de água estão o terraceamento em áreas inclinadas, o plantio direto, o controle da erosão e do escoamento superficial e a preservação de nascentes. De acordo com Werneck, quando combinadas, essas ações transformam a propriedade em uma infraestrutura hídrica multifuncional, capaz de favorecer a infiltração e a regulação da água no ambiente.
O pesquisador também defendeu mecanismos de remuneração aos produtores rurais pela conservação das áreas de recarga hídrica e pela adoção dessas práticas. Como exemplo, apresentou o Projeto Produtor de Água do Pipiripau, no Distrito Federal, criado em 2008.
No projeto, parte dos recursos arrecadados pela concessionária de abastecimento de água é destinada a produtores que adotam boas práticas em suas propriedades. Segundo Werneck, a iniciativa contribuiu para reduzir conflitos pelo uso da água na bacia hidrográfica, fortalecer a governança local e ampliar a adoção de tecnologias conservacionistas. Entre os resultados, destaca-se uma economia estimada de 135 litros de água por segundo. “O projeto melhorou a relação entre produtores rurais, usuários urbanos e a concessionária de saneamento, além de fortalecer a gestão da bacia hidrográfica”, ressaltou.
Complementando a discussão, o presidente da Comissão Nacional de Irrigação da CNA, Davi Schmidt, destacou que o conceito de Soluções Baseadas na Natureza foi adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2020 e é reconhecido internacionalmente como uma estratégia para enfrentar desafios como mudanças climáticas, segurança alimentar e eventos extremos, ao mesmo tempo em que promove benefícios à biodiversidade e ao bem-estar humano.
Schmidt apresentou o Programa Especial de Proteção de Nascentes, coordenado pelo Sistema CNA/Senar, como uma iniciativa alinhada às SBNs. Lançado em 2015 com a meta de recuperar mil nascentes, o programa já ultrapassou 1.700 áreas atendidas, com ações de cercamento de nascentes, limpeza, conservação do solo e plantio de espécies nativas.
O representante da CNA também destacou os resultados do Plano ABC (2010-2019), política pública voltada à adoção de tecnologias de baixa emissão de carbono na agropecuária. Entre as práticas incentivadas estavam a fixação biológica de nitrogênio, o plantio direto, a recuperação de pastagens degradadas, os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), as florestas plantadas e o tratamento de dejetos animais. Segundo ele, as metas previstas foram superadas em 115%.
“As metas propostas para a agricultura brasileira são atendidas. As práticas hoje usadas pelos produtores rurais são adequadas para a mitigação das mudanças climáticas. O país é um exemplo em agricultura de baixo carbono”, afirmou.
Schmidt destacou ainda que o setor agropecuário precisa acompanhar a evolução das exigências dos mercados internacionais relacionadas à sustentabilidade e ao uso dos recursos naturais. Segundo ele, temas como segurança hídrica e Soluções Baseadas na Natureza tendem a ganhar cada vez mais relevância nas discussões globais sobre produção de alimentos. “O produtor rural pode ser um agente importante no enfrentamento dos desafios climáticos. Para isso, é fundamental demonstrar como as práticas adotadas nas propriedades atendem às demandas de mercados cada vez mais exigentes”, afirmou.
Sessão especial no Senado
A programação da 1ª Semana Nacional da Agricultura Irrigada começou na segunda-feira (15), com uma sessão especial no Senado Federal em comemoração ao Dia Nacional da Agricultura Irrigada. Na ocasião, o chefe-geral da Embrapa Cerrados, Jorge Werneck, destacou a importância da irrigação para a segurança alimentar, a geração de renda no campo e a sustentabilidade da produção agrícola. Acesse aqui a gravação.
Segundo o pesquisador, a irrigação ainda enfrenta críticas baseadas, muitas vezes, na falta de conhecimento técnico e científico. “Irrigação é bom, e é preciso dizer isso”, afirmou. Ele ressaltou que a tecnologia é essencial para garantir a produção em regiões sujeitas à irregularidade das chuvas e ampliar a produtividade sem a necessidade de expandir áreas agrícolas.
Werneck também defendeu que o debate sobre o uso da água na agricultura seja fundamentado em dados técnicos e reforçou a importância do monitoramento hidrológico, da pesquisa agropecuária e da governança dos recursos hídricos. Entre os exemplos citados estão o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), os estudos sobre disponibilidade hídrica e as iniciativas voltadas à eficiência do uso da água na agricultura.
Ao encerrar sua participação, destacou a necessidade de fortalecer os órgãos gestores de recursos hídricos e reafirmou o compromisso da Embrapa com a geração de conhecimento para apoiar políticas públicas e o desenvolvimento sustentável da agricultura irrigada. “Precisamos avançar na agricultura irrigada de maneira correta, com manejo, gestão e governança adequados para que ela gere benefícios e não conflitos. E a Embrapa está à disposição para contribuir com conhecimento, ciência e parcerias nesse processo”, concluiu.
