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Vício em bets faz procura por tratamento de saúde mental aumentar em mais de 600%
A Medida Provisória que acaba com a exploração, oferta, intermediação e
publicidade de apostas esportivas e os jogos online, em ambientes
físicos e virtuais, foi baseada na nova e crescente demanda de saúde
pública no país: o
colapso da saúde mental de mais de 1,5 milhão de brasileiros, com aumento dos números de suicídios, depressão, ansiedade e outros transtornos de comportamento.
Com uma alta superior a 600% na procura por tratamento contra a ludopatia no Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde está rastreiando os viciados em bets para o acompanhamento da saúde mental.
O vício nos jogos vai além da perda financeira. Está associado a
ansiedade, depressão, perda de controle, alterações no sono e no
humor, conflitos familiares, isolamento, prejuízos às relações pessoais e
profissionais e maior uso de álcool e outras drogas.
“Há dados que expressam o tamanho do problema, mas certamente não
conseguem traduzir todo o sofrimento que aparece quando ouvimos os
relatos de pacientes, profissionais de saúde e familiares. Estamos
falando de algo que vai muito além de uma atividade econômica:
entra nas casas das pessoas, nas escolas e nos celulares, e afeta não
apenas quem desenvolve um comportamento compulsivo, mas também os
familiares que estão ao seu redor. Nós temos o autoteste disponível no
Meu SUS Digital para que cada pessoa possa avaliar
o impacto das apostas na própria vida", ressaltou o ministro da Saúde,
Alexandre Padilha.
A mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno
do jogo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A dificuldade
financeira é o principal fator associado ao suicídio entre apostadores.
O risco de desenvolver dependência é três vezes maior entre pessoas
socioeconomicamente vulneráveis e 150% maior entre jogadores online.
Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses
anteriores à pesquisa, e 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo de
risco ou problemático.
Os efeitos já aparecem na demanda pelo SUS. Entre 2018 e 2025, os
atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas
cresceram cerca de 140%, e aprojeção é de aumento de mais 104% até
2028.
Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima em R$
38,8 bilhões anuais o custo social associado aos jogos, dos quais R$
30,6 bilhões — quase 79% — estão ligados à saúde, incluindo suicídios,
perda de qualidade de vida associada à depressão
e tratamentos médicos.
A exposição começa cedo e também afeta familiares. Pesquisa em escolas
públicas e privadas mostrou que 20,4% dos estudantes já apostaram
online; o contato pode começar aos 11 anos e, entre os meninos do 3º ano
do Ensino Médio, a proporção chega a 49,7%.
Entre as mulheres que apostam ou já apostaram, 65% disseram não ter
procurado ajuda por vergonha; entre as que não apostam, 12% relatam
impactos decorrentes do jogo de familiares.
Por Letícia Belém
