Carolina Mendonça destaca que o vínculo com os livros pode começar antes mesmo da alfabetização, por meio de histórias, imagens e da leitura compartilhada /Foto: Divulgação | Focco Comunicação
Bienal bate recorde de público, mas Brasil ainda enfrenta desafio de formar leitores desde a infância
Durante dez dias, milhares de leitores ocuparam os corredores da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Encerrada no domingo (13/9), a edição recebeu 760 mil visitantes, o maior público de sua história. O número superou os 722 mil registrados em 2024 e veio acompanhado de um crescimento de 57% na média de faturamento dos expositores, segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL).
O movimento entre estandes, sessões de autógrafos e espaços de debate confirma o interesse despertado pela literatura, especialmente entre o público jovem. Fora dos pavilhões, porém, o país ainda convive com um cenário preocupante. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta que 53% da população brasileira não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Em 2019, esse percentual era de 48%.
A distância entre o entusiasmo observado nos grandes eventos literários e os hábitos de leitura da população reforça uma discussão antiga: a formação de leitores precisa começar cedo. Para a escritora Carolina Mendonça, o vínculo com os livros pode ser construído antes mesmo da alfabetização, por meio do contato com histórias, imagens, personagens e da leitura compartilhada com os adultos.
“A arte e a literatura se encontram na forma de contar histórias e criar conexões. Como escritora, levo esse repertório para os livros, unindo texto e imagem para despertar a curiosidade e a imaginação das crianças”, afirma Carolina.
Leitura começa antes da alfabetização
A primeira infância compreende o período que vai do nascimento aos 6 anos completos, ou 72 meses de vida. É uma etapa marcada pelo desenvolvimento da linguagem, da capacidade de aprendizagem e das relações sociais e afetivas. Nesse percurso, ouvir histórias, observar ilustrações, manusear livros e conversar sobre personagens ajudam a criança a se familiarizar com a palavra escrita.
Esse contato não exige grandes estratégias. Pode começar com alguns minutos de leitura em família, livros ao alcance das mãos, liberdade para escolher as histórias e disposição para reler muitas vezes o mesmo título. A repetição, tão comum entre os pequenos, também faz parte da descoberta das palavras, dos sons e das imagens.
Mais do que antecipar conteúdos escolares, a leitura na infância deve estar ligada ao prazer e à curiosidade. Quando o livro aparece nos momentos de descanso, brincadeira e convivência, deixa de ser apenas uma tarefa e passa a integrar a experiência cotidiana da criança.
A escola completa esse trabalho ao ampliar o acesso às obras e apresentar diferentes autores, estilos e narrativas. Bibliotecas convidativas, rodas de leitura, contação de histórias e encontros com escritores abrem caminhos para que cada criança encontre livros com os quais possa se identificar, imaginar e fazer perguntas.
Histórias que nascem da experiência
Carolina estreou na literatura infantil com “Pé de Quê?”, lançado em 29 de agosto, em Ribeirão Preto. A obra nasceu das lembranças do quintal cultivado por sua avó, Dona Rosa, e da relação dos filhos Catarina e Luiz Albino Neto com a terra. Na narrativa, amizade, afetos e descobertas conduzem os pequenos leitores até a origem dos alimentos.
Com ilustrações de Nathália Pinheiro, o livro transforma elementos próximos do universo infantil em ponto de partida para novas perguntas. Frutas, quintais e memórias familiares ajudam a aproximar as crianças da natureza e do caminho percorrido pelos alimentos antes de chegarem à mesa.
Para Carolina, histórias que dialogam com experiências reconhecíveis favorecem a aproximação com a literatura. Ao encontrar nas páginas sabores, lugares, relações familiares e situações que fazem parte de seu repertório, a criança estabelece vínculos com a narrativa e amplia sua maneira de perceber o mundo.
O recorde alcançado pela Bienal de São Paulo revela a força dos livros como experiência cultural e coletiva. Transformar essa mobilização em hábito, no entanto, depende de um trabalho contínuo, iniciado em casa, fortalecido pela escola e sustentado pelo acesso à literatura ao longo da vida.
Sobre Carolina Mendonça
Carolina Mendonça é publicitária, administradora, art advisor e escritora. Nascida em São Paulo, vive há 11 anos em Ribeirão Preto, onde desenvolve projetos ligados à literatura infantil e às artes visuais. Inspirada pelas experiências com os filhos e pelas memórias do quintal cultivado pela avó, estreou na literatura com “Pé de Quê?”, obra que aproxima infância, natureza e origem dos alimentos. Carolina também representa artistas de Ribeirão Preto, escreve sobre arte e atua no desenvolvimento de projetos culturais.
Por Dayane Malta
