Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - Casos de Salmonella e Sanidade Avícola: Por Que Controles Funcionam, Onde Estão os Desafios e o Exemplo do Brasil = Por Roberta Zuge
Os consumidores, especialmente da Bélgica e Luxemburgo foram inundados com avisos sobre os ovos contaminados, por Salmonella Enteritidis. Segundo a Agência Federal para a Segurança da Cadeia Alimentar da Bélgica (FASFC) são mais de 300 registros entre fevereiro de 2025 e agosto de 2026. Como os ovos são rastreados, os códigos das granjas estão impressos na casca de cada ovo, foi identificada uma granja em Geel, na Flandres (operada pela Laerco BV). A estimativa é que dois milhões de ovos estejam potencialmente contaminados e tenham sido comercializados na Bélgica e em Luxemburgo, além de distribuição para França, Países Baixos, Itália e Portugal.
A Salmonella Enteritidis pode colonizar o trato intestinal das galinhas sem manifestar sintomas aparentes. Esta bactéria pode alcançar os ovários da ave e contaminar internamente o ovo, antes mesmo da formação da casca. Por ser um microrganismo presente na natureza e de ampla difusão, nenhum sistema do mundo, por mais avançado que seja, opera com risco zero.
A existência de falhas pontuais ou detecções de bactérias não significa, por si só, que a produção seja insegura. O ponto crítico não é prometer a ausência absoluta de patógenos no ambiente — o que é biologicamente impossível —, mas sim garantir mecanismos rápidos de identificação, isolamento e controle.
No caso da Bélgica, assim que a contaminação foi identificada em um dos galpões em maio, houve interdição parcial, ampliação das análises e posterior bloqueio total do complexo (com o recall dos lotes codificados como 2-BE-1073-01 a 04). O recall e a transparência pública não são evidências de falha do sistema, mas prova de que a vigilância ativa está funcionando para proteger o consumidor final.
O contexto internacional da Salmonella na Europa conecta-se diretamente à discussão sobre a segurança da carne e dos ovos produzidos no Brasil. Recentemente, a avicultura brasileira enfrentou e superou um rigoroso embargo comercial imposto por parceiros internacionais devido a alertas sanitários específicos. A retirada do embargo à carne de aves do Brasil chancela a capacidade de resposta e a transparência do sistema nacional frente aos exigentes padrões globais.
No entanto, para compreender o modelo brasileiro, é preciso reconhecer que o Brasil é um país extremamente heterogêneo, o que impede a aplicação de um olhar simplista ou uniforme sobre toda a produção agrícola:
- O Brasil Altamente Tecnificado e Profissional: O parque avícola comercial voltado à exportação e ao grande mercado interno — concentrado fortemente nas regiões Sul e Sudeste, além de polos integrados no Centro-Oeste — opera sob padrões de biossegurança de nível mundial. As granjas industriais contam com automação, controle rígido de acesso, acompanhamento veterinário em tempo integral, monitoramento sorológico frequente e rigoroso manejo de higiene.
- A Realidade Distante dos Grandes Polos: Paralelamente, em um país de dimensões continentais, existem regiões e pequenos produtores rurais que ainda estão distantes desse grau de tecnificação e investimento. Há feiras informais, criações subsistentes ou locais sem estrutura de inspeção contínua, onde o controle bacteriológico e a rastreabilidade ainda enfrentam gargalos históricos.
Por essa razão, o sistema de controle sanitário no Brasil não pode ser único ou engessado. Ele precisa ser abrangente, adaptativo e focado em elevar o patamar de conformidade em todas as pontas da cadeia, reconhecendo as assimetrias regionais.
A legislação brasileira de sanidade avícola é reconhecida como uma das mais rígidas do mundo. O Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA), do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), normatiza o setor desde 1994, complementado por diretrizes como:
- IN nº 78/2003: Define critérios para certificação de granjas como livres ou controladas para diferentes tipos de Salmonella.
- IN nº 20/2016: Estabelece o monitoramento contínuo em estabelecimentos avícolas comerciais e frigoríficos.
- nº 56/2007: Regulamenta os procedimentos estruturais, de registro e de biosseguridade obrigatórios em todas as granjas avícolas comerciais no Brasil.
Granjas de reprodução e estabelecimentos comerciais de grande porte são submetidos a auditorias periódicas e auditorias formais. A presença do Responsável Técnico (médico-veterinário) é exigência legal em cada unidade cadastrada.
Seja na Europa com o recall de ovos na Bélgica, seja no Brasil com a superação dos embargos e a retomada das exportações de aves, a mensagem principal é a mesma: problemas sanitários existiram, existem e continuarão existindo em qualquer cadeia biológica de alimentos.
O grande diferencial entre um sistema seguro e um predatório não é a promessa irreal de perfeição, mas a existência de controle rígido, rastreabilidade e resposta rápida.
Alertas sanitários e recolhimentos de produtos demonstram que a fiscalização funciona. O verdadeiro risco para o consumidor não está na indústria inspecionada que corrige suas falhas, mas sim na informalidade sem rastreio, no produto sem origem comprovada e na falta de boas práticas de manipulação térmica no preparo dos alimentos.
Roberta Zuge, Mestre e Doutora em Reprodução Animal pela Universidade de São Paulo (USP) e conselheira do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)
