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Espetáculo "Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro" leva aos palcos um dos casos de feminicídio mais marcantes da história da Bahia
Com apresentação especial no dia 8 de agosto, um dos episódios mais impactantes da história da Bahia ganha vida nos palcos em uma montagem que une pesquisa histórica, teatro e reflexão social. O espetáculo "Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro", escrito e dirigido por Adson Brito do Velho, revisita o assassinato da jovem Júlia Clara Fetal, ocorrido em Salvador, em 20 de abril de 1847, crime que atravessou gerações e permaneceu na memória popular como "O Crime da Bala de Ouro". A apresentação será realizada no Teatro Xisto Bahia, nos Barris, reunindo um elenco formado por Adson Brito do Velho, Alexandro Beltrão, Sofia Bonfim, Orlita Cruz e Eobelle Rocha.
Baseada em fatos reais, a montagem transporta o público para a Salvador do século XIX para contar a história da jovem de apenas 20 anos, pertencente a uma influente família da capital baiana, cuja vida foi interrompida pelo próprio noivo, o professor João Estanislau da Silva Lisboa. Inconformado com a decisão de Júlia de romper o noivado, ele a assassinou dentro da residência da família durante uma reunião social.
O episódio tornou-se um dos crimes mais conhecidos do Brasil Imperial e entrou definitivamente para a história pelo simbolismo da chamada "bala de ouro". Segundo a tradição popular, o assassino teria mandado fundir as alianças do casal para fabricar o projétil utilizado no homicídio. Embora exames da época tenham comprovado que a bala era de chumbo, a narrativa permaneceu viva no imaginário popular, tornando-se um dos casos policiais mais conhecidos da história baiana.
Mais do que uma reconstrução histórica, o espetáculo estabelece um diálogo direto com a realidade contemporânea. O assassinato de Júlia, que hoje seria juridicamente enquadrado como feminicídio, evidencia que a violência contra a mulher possui raízes profundas na sociedade brasileira. A montagem convida o público a refletir sobre o ciclo da violência nos relacionamentos abusivos, o comportamento controlador, o ciúme possessivo e a cultura que, durante séculos, naturalizou agressões contra mulheres.
Ao longo dos 50 minutos de espetáculo, o público acompanha desde o início do relacionamento entre Júlia Fetal e João Estanislau, passando pelo período de noivado, pelas demonstrações de ciúme obsessivo do professor e pela escalada da violência psicológica até o desfecho trágico. A narrativa evidencia como comportamentos inicialmente vistos como demonstrações de amor podem evoluir para situações extremas de violência.
Para o autor e diretor Adson Brito do Velho, revisitar esse episódio histórico é também uma maneira de discutir uma realidade que continua presente no cotidiano brasileiro.
"O caso de Júlia Fetal aconteceu há quase dois séculos, mas infelizmente continua extremamente atual. Mudaram os cenários, mudaram as leis, mas milhares de mulheres ainda são assassinadas simplesmente por decidirem terminar um relacionamento ou exercer seu direito de escolha. A peça busca preservar essa memória histórica e, ao mesmo tempo, provocar uma reflexão urgente sobre o feminicídio", afirma o diretor.
Além da pesquisa histórica realizada para a construção dramatúrgica, a montagem dialoga com importantes registros da literatura brasileira. O caso inspirou obras de autores como Pedro Calmon, Adélia Fonseca e Jorge Amado, além de ter servido como referência para a novela Espelho da Vida, exibida pela televisão brasileira em 2018.
A encenação também recupera aspectos pouco conhecidos da trajetória dos personagens. Júlia Fetal era considerada uma das jovens mais cultas da sociedade soteropolitana da época. Filha de uma francesa e de um comerciante português, recebeu educação refinada, falava francês, estudava inglês, tocava piano e dedicava-se às artes e ao desenho.
Já João Estanislau, professor respeitado do antigo Liceu Provincial da Bahia, chegou a ser tratado como "Dr. Lisboa" devido ao reconhecimento intelectual que possuía. Após confessar o crime, foi condenado a 14 anos de prisão no Forte do Barbalho. Durante o cumprimento da pena recusou um pedido de indulto encaminhado ao imperador Dom Pedro II, afirmando não ser merecedor de perdão.
A montagem também faz referência aos locais históricos ligados ao episódio, como a antiga residência da família Fetal, nas proximidades da Praça da Piedade, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, onde repousam os restos mortais de Júlia, e o Museu Feminino da Bahia, que preserva objetos relacionados ao caso.
Com cenário assinado por Bhel Aguiar, figurinos de Orlita Cruz e César Adolfo e registro audiovisual de Alisson Emanuel de Sousa, o espetáculo alia rigor histórico e linguagem teatral contemporânea para transformar um dos episódios mais conhecidos da história da Bahia em uma reflexão necessária sobre memória, justiça e direitos das mulheres.
Serviço
Espetáculo: Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro
Texto e direção: Adson Brito do Velho
Local: Teatro Xisto Bahia – Rua General Labatut, 27, Barris, Salvador
Horário: 8 de agosto às 19h
Duração: 50 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Elenco: Adson Brito do Velho, Alexandro Beltrão, Sofia Bonfim, Orlita Cruz e Eobelle Rocha
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda na bilheteria do teatro e pelo Sympla
Por Doris Pinheiro
