Guilherme de Almeida - Presidente da Autistas Brasil - Crédito foto: @juliabrendas
Pesquisador autista vê conceito desenvolvido em tese de doutorado refletido em exposição inaugurada no maior museu da China
Em
abril de 2026, o pesquisador Guilherme de Almeida, pessoa autista e
presidente da Autistas Brasil, defendeu na Faculdade de Educação da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) uma tese sobre a efetiva
contribuição de pessoas autistas no ensino
superior. Entre os conceitos desenvolvidos no estudo está o de autoria
histórico-criativa, que descreve a passagem da pessoa autista de
destinatária de políticas de inclusão para protagonista na produção de
conhecimento e na tomada de decisões.
Poucas semanas depois, a inauguração da exposição O Brasil de Portinari, no Museu Nacional da China, em Pequim — projeto do qual já participava como diretor executivo — deu visibilidade concreta a esse mesmo percurso.
No
cenário internacional das artes e da cultura, o caso é considerado
incomum. Levantamento realizado pela Autistas Brasil sobre a presença de
pessoas com deficiência em posições de liderança em grandes
instituições culturais aponta que cargos
de direção e curadoria em museus de grande porte continuam concentrados
em poucos países e, quando ocupados por pessoas com deficiência, estão
mais frequentemente associados a deficiências físicas ou sensoriais.
Registros de lideranças autistas em
posições executivas de alto nível ainda são raros.
Orientada
pela professora Sandra Fernandes Leite, a tese articula dois conceitos
centrais. O primeiro é a autoria histórico-criativa, que busca explicar o
momento em que a pessoa autista deixa de ser apenas beneficiária de
políticas inclusivas e
passa a ocupar espaços de produção de conhecimento e tomada de decisão. O
segundo é o de justiça neurocognitiva, entendido como o reconhecimento
de diferentes formas legítimas de pensar, aprender e expressar
conhecimento.
A
partir dessa análise, o pesquisador argumenta que muitas instituições
avançaram na ampliação do acesso, mas ainda enfrentam desafios para
garantir condições efetivas de protagonismo. Para ele, universidades e
espaços culturais frequentemente
recebem pessoas com deficiência como meros espectadores, mas ainda
oferecem poucas oportunidades para que ocupem posições de liderança.
Semanas
após a defesa da tese, o conceito ganhou uma expressão concreta
definitiva. Em 9 de junho foi inaugurada, no Museu Nacional da China, a
exposição O Brasil de Portinari, projeto do qual Almeida já participava como diretor executivo e
que passou a representar, na prática, muitas das reflexões desenvolvidas em sua pesquisa.
“Há
uma vertigem boa em ver um conceito que a gente criou voltar para
dentro da própria vida”, afirma Guilherme de Almeida. “Na academia, na
própria forma da tese: um autista teorizando e exercendo a autoria
autista. E, na cultura, acompanhando
a concretização de um projeto que ajudamos a construir no maior museu da
China. Se a autoria histórico-criativa valeu para mim, pode servir de
mapa para outras pessoas autistas.”
A exposição O Brasil de Portinari
leva obras de Candido Portinari ao Museu Nacional da China em
articulação com João Candido Portinari, autoridade curatorial do
projeto. A direção executiva da iniciativa coube a
Almeida.
O
episódio ocorre em um contexto de desafios persistentes para a inclusão
de pessoas autistas no mercado de trabalho. Dados do A.J. Drexel Autism
Institute apontam que cerca de 14% dos adultos autistas possuem emprego
remunerado nos Estados Unidos. No
Brasil, levantamento do Instituto Autismos, divulgado em 2025,
identificou que quase 30% dos adultos autistas estão desempregados ou
sem renda.
Para
especialistas e organizações da área, esses números evidenciam que a
exclusão não está relacionada à qualificação profissional, mas a
obstáculos estruturais que dificultam o acesso e a permanência em
espaços de trabalho e
liderança.
Entre
essas barreiras está a chamada barreira atitudinal, definida pela Lei
Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) como comportamentos e
percepções que limitam ou impedem a participação social da pessoa com
deficiência em igualdade de
condições. Diferentemente das barreiras físicas, ela se manifesta em
expectativas reduzidas, preconceitos e processos de seleção que
restringem oportunidades antes mesmo do primeiro contato profissional.
“Essa barreira tem nome: é a barreira atitudinal, e talvez seja a mais difícil de superar. Diferentemente de uma escada sem rampa, ela é invisível. Está nos pressupostos, nas expectativas rebaixadas e em processos que decidem, antes mesmo da entrevista, que a pessoa autista não vai dar conta”, argumenta o pesquisador.
Para
a Autistas Brasil, a trajetória de Almeida simboliza a possibilidade de
ampliar a presença de pessoas autistas em espaços de decisão, produção
de conhecimento e liderança institucional.
A
divulgação do caso ocorre em meio às celebrações do Dia Nacional do
Orgulho Autista, em 18 de junho, data que passa a integrar oficialmente o
calendário brasileiro a partir da Lei nº 15.365/2026. Diferentemente do
Dia Mundial de
Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, a data tem como
foco a valorização da neurodiversidade, do protagonismo e das
contribuições das pessoas autistas à sociedade.
Para
a organização, a experiência de Guilherme de Almeida representa
justamente essa mudança de perspectiva: a passagem da inclusão como
acesso para a inclusão como participação efetiva nos espaços de criação,
liderança e tomada de decisão.
Mais do que um caso individual, a entidade avalia que o episódio
demonstra que a autoria autista pode ocupar o centro das instituições —
da universidade aos museus — deixando de ser exceção para se tornar uma
possibilidade
concreta.
Sobre a Autistas Brasil
Organização nacional fundada e liderada por pessoas autistas, a Autistas Brasil atua na formulação de políticas públicas, na incidência jurídica e no desenvolvimento de programas educacionais em larga escala. Nos últimos três anos, suas ações alcançaram mais de 21 mil educadores em todo o país, consolidando a instituição como referência em inclusão, neurodiversidade e direitos humanos.
Por Myllena Reis
