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ARTIGO - Antes da estatueta: como o marketing e as comunidades digitais moldam a corrida para o Oscar = Por Gian Martinez
Na temporada do Oscar, costuma existir a ideia de que os filmes competem apenas pela qualidade artística: direção, roteiro, trilha sonora, elenco, etc. Mas, na prática, a corrida pela estatueta envolve também visibilidade contínua, construção de narrativa e presença cultural. Nesse processo, as redes sociais deixaram de ser apenas um espaço de repercussão e passaram a funcionar como parte ativa da disputa.
Hoje, um filme indicado não circula apenas entre críticos e votantes da Academia, mas passa a existir dentro das conversas nas redes sociais, no cafézinho do trabalho, no almoço de família. Todos esses ambientes interpretam, ampliam e disputam o significado de uma obra. Além disso, perfis de redes sociais analisam cenas, recortam discursos, resgatam entrevistas antigas de indicados e constroem leituras coletivas que ajudam a manter determinados títulos em evidência ou não.
Nesse contexto, o Oscar deixa de ser apenas uma premiação e passa a funcionar como um evento cultural continuamente narrado e regulado pelas comunidades digitais. Um exemplo disso é o do ator Timothée Chalamet, que aparentemente está perdendo o favoritismo de levar a estatueta de Melhor Ator para Michael B. Jordan, após dar declarações polêmicas sobre artes clássicas, como balé e ópera.
Do ponto de vista das plataformas, a dinâmica se torna especialmente visível em ambientes como TikTok, X e Instagram. Nessas redes, filmes indicados se tornarem assuntos em circulação frequente: trechos são reinterpretados, discursos viram cortes virais e teorias sobre quem deveria vencer mobilizam as pessoas, que não medem esforços para compartilhar a própria opinião sobre um fato.
E, embora o engajamento espontâneo seja importante, muitas conversas seguem o comportamento coletivo de páginas de fãs e criadores de conteúdo que impulsionam determinados nomes e defendem narrativas que consideram importantes para aquele momento histórico.
Esse movimento ajuda a explicar por que alguns filmes permanecem no centro da conversa por meses, enquanto outros desaparecem rapidamente da agenda cultural. O contexto em que aquele filme surge, o tipo de história que ele representa e o que uma eventual vitória simbolizaria naquele momento também importa.
Nesse processo, as comunidades digitais funcionam como amplificadoras culturais, ajudando a construir o ambiente simbólico em que aquela premiação será interpretada.O resultado é que a visibilidade de um filme passa a depender também da capacidade de sua história circular e ser apropriada por diferentes públicos.
Por isso, observar o comportamento dessas comunidades se tornou fundamental para entender como grandes eventos culturais evoluem na era das plataformas. O Oscar continua sendo decidido por votantes da indústria, mas a percepção pública sobre os indicados também é muito moldada por milhões de interações que acontecem diariamente nas redes.
Gian Martinez é co-fundador e CEO da Winnin, plataforma de inteligência cultural que analisa tendências de consumo em redes sociais por meio de IA proprietária, a ZAI™.
