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Especialista lista 10 estratégias para construir imagem profissional sem cair na armadilha da ‘mulher que dá conta de tudo’
A presença feminina no mercado, embora represente cerca de 40% da força de trabalho mundial, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ainda enfrenta barreiras que excedem a esfera profissional. Nesse cenário, a sobrecarga nas rotinas, muitas vezes associada à tentativa de conciliar identidade, presença e autocuidado, tornou-se tema recorrente de debates entre consultores de imagem.
De acordo com Cáren Cruz, especialista em Colorimetria, RP e Investida do ‘Shark Tank Brasil’, a aparência opera como código não verbal dentro de um sistema que lê sinais o tempo todo. À frente da Pittaco Consultoria, ela afirma que muitas das suas assessoradas relatam o desejo de ter sido orientadas mais cedo sobre como utilizar a moda de forma estratégica, desde a comunicação pela roupa, cabelo e composição visual até aspectos como forma de falar, sensibilidade, credibilidade e a capacidade de estabelecer limites.
“A imagem profissional não se constrói só para o externo, mas ela também conversa com o interno, especialmente em ambientes organizacionais. Tem gente que tem consciência racial e, ainda assim, percebe que certos detalhes simbólicos da sua aparência acabam virando critério de avaliação do mercado, quando não deveriam. Isso desgasta. E é por isso que organização de narrativa visual não é vaidade: é reduzir dano, diminuir ruído, evitar improviso, sustentar presença com mais tranquilidade. A pessoa não está ‘tentando agradar’; ela está escolhendo caminhos que protegem sua energia. Então, para não virar mais uma cobrança, a regra é simples, com menos performance e mais sistema. Ou seja, menos ‘dar conta’, mais ‘coerência’”, comenta.
Ensinando como construir uma imagem profissional forte sem transformar em mais uma cobrança, Cáren explica que, em primeiro lugar, deve-se retirar a palavra “forte” do lugar de armadura. A especialista reforça que desmistificar a ideia da “mulher-maravilha”, “guerreira” ou “que supera qualquer coisa”, deixou de ser elogio e trouxe um peso em torno das mulheres.
“Quando falamos de uma imagem profissional forte, eu não estou falando de dureza, nem de performance, nem de sustentar um personagem. Eu estou falando de coerência. A sua aparência exterior alinhada ao que te move por dentro, com um mínimo de esforço e um máximo de verdade”, explica.
Para Cáren, esse caminho é trilhado na mentalidade e no acolhimento. “A pergunta não é sobre como eu pareço mais respeitável, mas como eu me vejo e me reconheço todos os dias, sem me violentar? Porque se a imagem vira mais uma tarefa, ela vira punição. E a proposta é o contrário: a narrativa visual como ferramenta de cuidado e organização. Você não se arruma para cumprir expectativas do outro, você se organiza para se sentir inteira no seu próprio corpo e para sustentar sua presença com tranquilidade”, reforça.
Parando de tratar a aparência como ‘evento’
De acordo com Cáren, o segundo ponto prático para romper com a sobrecarga nas rotinas é parar de tratar a aparência como evento. A Comunicóloga explica que a tendência natural das pessoas é “pensar em si” apenas em reuniões, coquetéis, vídeos ou algum evento importante.
“É nesse cenário que a rotina vira correria, improviso, culpa e desgaste. O que resolve isso não é complexidade, é sistema simples. Eu trabalho com uma ideia básica, não existe ‘roupa de casa’ e ‘roupa de sair’, existe roupa para viver. O que muda é o contexto e o ajuste, não a dignidade da sua presença dentro de casa. Se você passa o dia no home office, por exemplo, o senso comum diz ‘estou em casa, então não preciso pensar em mim’. Eu proponho a inversão, ‘estou em casa, então eu preciso me acolher primeiro’. Isso não significa salto alto, maquiagem completa, uma estética estereotipada. Significa vestir algo que te faça olhar e dizer ‘eu estou aqui’”, narra.
A partir daí, a especialista explica que tirar a cobrança é trabalhar com peças-base e com rotinas de baixo atrito. Em vez de montar um look todos os dias como se fosse prova, a orientação é montar um pequeno repertório que funciona para a semana real, em casos de atendimento, reunião, entrega, gravação ou imprevistos. “É como deixar a casa organizada. Você não limpa tudo toda hora, mas cria um sistema que te poupa”, complementa.
A imagem influencia na maneira que a mulher é percebida no trabalho?
Segundo Cáren Cruz, a leitura no ambiente de trabalho começa muito antes da fala, e sim pela aparência. “A sociedade faz, sim, um pré-julgamento. Um rastreamento rápido é feito em segundos, na qual a outra pessoa encaixa você numa categoria muitas vezes sem consciência crítica, sem repertório e sem cuidado. É um tipo de leitura vulnerável, mas que, no cotidiano, pode virar um filtro agressivo e preconceituoso”, diz.
No ambiente de trabalho, o pré-julgamento costuma recair em perguntas silenciosas e que orientam decisões. Cáren explica que atributos como competência, sensatez, estratégia e confiabilidade deveriam ser avaliados por entrega, histórico e consistência, acabam sendo projetados por signos visuais, como a escolha de peças, postura, cabelo, maquiagem, acessórios, organização do conjunto, modo de se apresentar. “Ou seja, a aparência vira atalho para conclusões sobre caráter profissional”, completa.
A chave para o entendimento, segundo Cáren, é perceber que a aparência funciona como um cartão de visita simbólico, que embora não prove competência, influencia a disponibilidade do outro em ‘reconhecer competências’. “Ter intencionalidade na narrativa visual não é vaidade, é estratégia de redução de ruído. Tem um recorte que não dá para ignorar. Esses pré-julgamentos pesam mais quando a pessoa já chega sendo interpretada por marcadores sociais, como raça, gênero, território e classe. Por isso, a mesma escolha estética pode ser lida de formas muito diferentes dependendo de quem está usando. Consciência disso não é paranoia, é leitura do campo. E, a partir dessa leitura, a pessoa pode construir uma presença que sustente o posicionamento, proteja energia e aumente a chance de ser reconhecida pelo que faz e não reduzida ao que o outro imagina em dois segundos”, conclui.
Conheça abaixo 10 estratégias para construir sua imagem, segundo Cáren
1) Trate posicionamento profissional como narrativa visual, não como figurino;
2) Adote uma lógica de “roupa para viver”, não “roupa de casa” e “roupa de sair”;
3) Defina seu “padrão pessoal de conforto” (o que te acolhe);
4) Monte um repertório mínimo de presença (sem complexidade);
5) Crie 3 combinações prontas e deixe registradas;
6) Tenha um “kit de dois minutos” para reorientar a leitura da sua presença (terceira peça como brinco, batom, lenço);
7) Simplifique cor com intenção, não com regra;
8) Padronize cabelo e maquiagem(se gostar) com rotinas possíveis;
9) Faça um check-in rápido antes de sair: 3 perguntas (eu me reconheço?; isso sustenta meu dia?; Minha presença está coerente com o que eu vou viver hoje?);
