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Revelado pela Globo, Felipe Alcântara une forró e fé e se prepara para a temporada de São João
Paraibano de 37 anos, Felipe Alcântara foi revelado no Superstar (Globo) em 2015 como vocalista da banda Os Gonzagas e construiu uma carreira marcada por contrastes que, na prática, se completam: palco e oração, estrada e família, música e espiritualidade. Criado em uma família musical, cresceu entre rodas de samba, cavaquinho e violão. Rodou a Europa, gravou com Maneva, Santanna o cantador e Lucy Alves, dividiu palco com Chico César, Elba Ramalho, Tato Falamansa, Vitor Kley, Flávio José, Toni Garrido, Mestrinho, e transformou clássicos da música brasileira em forró cheio de identidade. Agora, o cantor entra em uma nova fase e assume seu posicionamento no forró, gênero que sempre esteve presente em sua formação musical. A proposta passa a ganhar contornos ainda mais definidos com a ideia de fortalecer o chamado forró católico, unindo cultura nordestina e espiritualidade em um mesmo repertório. A escolha acontece em um momento em que o forró voltou a ganhar força no país, impulsionado por artistas nordestinos que ampliaram o alcance do gênero. O sucesso de nomes como João Gomes ajudou a levar a cultura nordestina a novos públicos. Felipe entra nesse movimento com uma proposta própria: manter o clima de festa do forró, mas com letras voltadas à fé. Aos quatro anos, já aparecia em registros tocando instrumentos de percussão em rodas de samba. Aos oito, começou no cavaquinho. Depois veio o violão, aprendido com ajuda do pai, revistas e um amigo que hoje ainda produz algumas de suas músicas. Na adolescência, montou uma banda de rock com colegas da escola e passou a cantar em festas, eventos escolares e grupos de samba e forró pé de serra, chegando a integrar a banda Forró Mais Eu, bastante conhecida em João Pessoa. Felipe estudava e acabou fazendo um intercâmbio em Portugal. Foi ali que percebeu que podia viver da arte. “Quando cheguei lá, minha única oportunidade de trabalho foi na música”, conta. De volta ao Brasil, decidiu investir no forró, sem abandonar as influências do rock e do reggae. O chamado em meio à dor A chegada ao SuperStar aconteceu em um dos períodos mais difíceis de sua vida. Pouco antes da seleção para o programa, Felipe havia perdido o pai. Abalado, chegou a pensar em abandonar a música. “Fiz um show pouco depois da morte dele e constantemente não conseguia cantar de tanto que chorava. Fui perdendo a vontade de estar no palco”, relembra. Sem herança ou aposentadoria, a situação financeira da família apertou. Durante uma adoração, fez uma prece: “Senhor, eu te devolvo o talento da música. Não quero mais cantar. Preciso pôr dinheiro em casa.” Naquele mesmo momento, ouviu uma palavra direcionada a um músico sobre uma nova oportunidade. Um mês depois, recebeu a ligação da Globo. “Tive certeza de que Deus tinha ouvido minha prece.” O programa transformou a banda em um projeto nacional. Vieram shows pelo país inteiro e uma agenda intensa. “Costumo dizer que o SuperStar foi uma universidade da vida. Tive que aprender a lidar com muitas coisas novas ao mesmo tempo.” Fé, família e escolhas inegociáveis Católico praticante, Felipe sempre colocou a fé no centro da vida. Casado com Rafaela Galvão, pai de três filhas e à espera do quarto filho, ele afirma que a paternidade transformou completamente sua forma de compor. “Tenho em mente que um dia minhas filhas poderão ouvir e cantar essas músicas. Isso muda totalmente a responsabilidade com cada palavra.” Essa postura também orienta decisões profissionais. Segundo ele, muitas propostas acabam recusadas. “Eu e Rafa damos muito mais ‘não’ do que ‘sim’. Às vezes são propostas tentadoras, mas não se encaixam no estilo de vida que escolhemos viver.” Recentemente, o casal voltou ao centro das discussões nas redes ao anunciar a quarta gravidez e falar sobre o voto de abertura à vida e o uso do método Billings. Felipe é direto ao lidar com críticas: “Valores inegociáveis, para mim, estão acima de qualquer opinião. Eu busco viver o Evangelho para contagiar, não para convencer ninguém.” A mente no céu e os pés no forró Depois de rodar a Europa, gravar com Maneva, Santanna O Cantador e Lucy Alves, e dividir palco com Tato Falamansa, Vitor Kley, Toni Garrido e Mestrinho, Felipe lançou Daqui pro Céu e Me Levanta e Me Faz Caminhar, duas faixas católicas. “Esse não é um ponto de virada. É um passo natural. Não estou mudando de carreira”, explica. O impulso final veio após cantar no Círio de Nazaré, em 2024. “A experiência foi totalmente diferente de qualquer outro palco. Ali uma semente foi plantada no meu coração.” Paralelamente ao lançamento, o cantor já começou a estruturar os próximos passos da carreira com foco no período junino. A equipe trabalha na preparação de repertório, novos lançamentos e na organização da agenda de shows para o São João, considerado um dos momentos mais fortes do calendário cultural nordestino. A ideia é apresentar um show que una a celebração típica das festas juninas com uma proposta espiritual, mantendo o caráter festivo do forró, mas com letras voltadas à fé. Criar todos os dias, viver sem rótulos Focado na carreira autoral, Felipe escreve quase diariamente. “Sou muito observador. Se uma cena, uma conversa ou um detalhe da rotina me chama atenção, já começo a criar algo a partir daquilo.” Hoje, guarda cerca de 15 músicas prontas ou em desenvolvimento. Entre os feats dos sonhos, cita Frei Gilson e Elba Ramalho, além de Djavan, Seu Jorge e Vitor Kley. Dos artistas que já partiram, Dominguinhos e Chorão. E quando percebeu que tinha “chegado lá”? “Quando minhas filhas entram no carro e pedem para ouvir alguma música minha. Parece simples, mas para mim é tudo.” Por Natálie Iggnacio |
