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Empreendedorismo feminino na cultura - conheça as mulheres que transformaram talento e vocação em negócio
O empreendedorismo feminino vem crescendo no país. Dados fornecidos pelo DataSebrae, do quarto trimestre de 2023, indicam que as mulheres representavam 10,11 milhões (33,89%) dos empregadores ou trabalhadores por conta própria (formais e informais) brasileiros. Já na Bahia, de acordo com uma pesquisa elaborada pelo Sebrae Bahia em 2026, cerca de 700 mil mulheres comandam empreendimentos no estado, evidenciando a força da participação feminina no desenvolvimento econômico local. O levantamento também aponta um crescimento de 6% no número de empreendedoras que migraram da categoria de microempreendedora individual para microempresária, indicando o crescimento e a consolidação desses empreendimentos liderados por mulheres.
Mylane Mutti, que é formada em Música Popular com habilitação em voz cantada pela Universidade Federal do Estado da Bahia (UFBA), e atua como professora de canto, preparando cantores e atores desde 2011, faz parte dessa modesta porcentagem de mulheres criativas. A empreendedora é idealizadora e coordenadora da escola de canto Cantoário. A ideia surgiu ainda nos corredores da universidade. Mylane, que sempre teve interesse na arte de ensinar, se dedicava a ministrar oficinas e a acompanhar de perto os desafios dos que entravam no mundo musical. A partir disso, entendeu que muitos desistiam pela falta de estímulo e de espaços que conectassem teoria e prática.
“Quando eu percebi que oferecer uma boa estrutura, qualidade no conteúdo, exige estudo e formação constante. Que produções melhores exigiam investimento, tanto da minha parte, quanto das pessoas a quem eu servia, entendi que era necessário valorizar mais o meu trabalho e o processo envolvido em cada entrega. O empreendimento na minha concepção é a estrutura que sustenta boas ideias. Essas ideias, por sua vez, transformam vidas. Quanto mais eu me dedico a investir, mais pessoas consigo beneficiar com minha prática, seja ela artística ou de qualquer outro segmento”, conta Mylane Mutti.
A instituição aperfeiçoou-se na formação do cantor por meio de uma abordagem multidisciplinar que integra música, dança, teatro e referências de diversas áreas artísticas, indo além do ensino da técnica vocal. O processo formativo também pode contar, de forma pontual, com intervenções de profissionais de áreas complementares como psicologia, fonoaudiologia e fisioterapia contribuindo para uma formação mais completa e consciente. Essa perspectiva amplia os recursos expressivos do artista e favorece o cuidado com a saúde vocal e emocional dos estudantes.
O desafio de empreender
Iniciar um negócio próprio envolve enfrentar incertezas, aprender a tomar decisões importantes e assumir responsabilidades que vão muito além da execução do trabalho. Para muitos empreendedores, o começo é marcado por um processo intenso de aprendizado, onde erros, ajustes e descobertas fazem parte da construção. No caso de quem empreende em áreas criativas e ainda ocupa espaços historicamente dominados por homens, os desafios também passam pela necessidade constante de afirmar competência, liderança e credibilidade no mercado.
“O desafio de todo microempreendedor é o conhecimento. Empreender demanda conhecimentos específicos que eu nunca fui ensinada. Isso consequentemente me levou a erros na prática diária, seja na precificação ou comunicação, por exemplo. Observando, errando, tomando ‘prejuízos’ e corrigindo as falhas na medida em que o negócio ia tomando forma, eu venho adquirindo experiência para tomar melhores decisões”, diz Mylane Mutti.
Para Mylane, é preciso promover uma mudança cultural para que mais mulheres ocupem espaços de liderança e destaque na economia criativa, encontrando oportunidades e incentivos. “O acesso à informação e à educação para formação, além da oferta de espaços de criação e desenvolvimento, são essenciais. Quando as mulheres empreendem, o impacto social é significativo. Tenho certeza de que perderíamos muito enquanto sociedade se as mulheres não ocupassem seus lugares no empreendedorismo”, afirma Mylane Mutti.
Empreender também é conciliar papéis
A realidade do empreendedorismo feminino também está presente em outras áreas profissionais, como o direito. A advogada previdenciarista Jacqueline Reis é um exemplo de mulher que transformou a carreira jurídica em um empreendimento próprio, conciliando os desafios da gestão de um escritório com as responsabilidades da maternidade.
Para Jacqueline, um dos maiores desafios está em conciliar a dedicação ao trabalho com a presença na vida familiar. “Na minha realidade, o principal desafio é encontrar equilíbrio entre a vida profissional e a maternidade. Empreender exige muito tempo, dedicação e responsabilidade, e ao mesmo tempo existe o desejo de estar presente na vida do meu filho, acompanhando o crescimento, proporcionando experiências e construindo memórias significativas”, afirma Jacqueline Reis.
Dados do Sebrae Bahia 2026 apontam que 41% são chefes de domicílio, 65% são mães, 39% afirmam não ter apoio para cuidar da casa ou dos filhos e 50% já sofreram algum tipo de preconceito. “Então, o desafio diário é alinhar essas duas dimensões: o conhecimento profissional, a gestão do escritório e todas as demandas do trabalho, sem abrir mão da presença na vida do meu filho. Mas também é importante reconhecer que, muitas vezes, não conseguimos ser 100% em tudo ao mesmo tempo e está tudo bem. A maternidade e o empreendedorismo nos ensinam muito sobre prioridades, sobre fazer o melhor dentro do que é possível e sobre valorizar os momentos que realmente importam” conta, Jacqueline Reis.
Empreendedorismo como ferramenta de autonomia
Discutir o empreendedorismo feminino vai além de falar sobre negócios. Trata-se de um debate que envolve autonomia, dignidade e transformação social. Para muitas mulheres, empreender significa conquistar independência financeira e ampliar as possibilidades de escolha sobre o próprio futuro.
“Debater sobre o empreendedorismo feminino é fundamental porque ele representa uma ferramenta real de autonomia e transformação social. Quando uma mulher empreende, muitas vezes ela não está apenas criando um negócio, mas garantindo a própria independência financeira e a estabilidade da família”, destaca Jacqueline Reis.
No exercício da advocacia, Jacqueline também acompanha de perto os desafios enfrentados por mulheres que decidem abrir o próprio negócio. Muitas procuram orientação jurídica para organizar suas atividades profissionais ou para lidar com questões relacionadas à segurança financeira e aos direitos sociais.
“Na prática jurídica, percebo que muitas mulheres que decidem empreender enfrentam o desafio de conciliar o crescimento profissional com as responsabilidades familiares. Muitas assumem múltiplos papéis ao mesmo tempo: empresária, mãe e responsável pela organização da casa”, explica Jacqueline Reis.
