Foto: Divulgação
ARTIGO - Geopolítica, tecnologia e a agenda inadiável para o setor têxtil e de confecção brasileiro = Fernando Valente Pimentel
O mundo caminha para 2030 sob uma lógica muito diferente daquela
que predominou nas últimas décadas. A globalização, baseada
exclusivamente em eficiência e baixo custo, vem sendo substituída por um
ambiente marcado por tensões geopolíticas, políticas industriais
nacionais e competição tecnológica. Nesse novo cenário, o futuro dos
setores produtivos será definido não só por preço fundamentalmente, mas
também por resiliência, tecnologia e posicionamento estratégico.
Relatório recente do World Economic Forum aponta que a economia
global será moldada pela interação entre geoeconomia — isto é, o impacto
da política e da geopolítica sobre o comércio — e tecnologia, com
destaque para a digitalização e a inteligência artificial. Não existe um
único futuro possível, mas diferentes cenários que variam por país e
por setor. Para o setor têxtil e de confecção brasileiro, essa
transformação traz desafios relevantes, mas também uma janela
estratégica rara.
Do lado dos desafios, a fragmentação do comércio internacional
tende a se intensificar. Barreiras técnicas, exigências ambientais,
regras digitais e políticas industriais ganham peso crescente. O setor
têxtil e de confecção brasileiro, que já convive com um elevado custo
estrutural de produção, enfrenta concorrência de países que operam sob
regras trabalhistas, ambientais, previdenciárias e financeiras muito
menos exigentes. O problema central não é a competição, mas a falta de
isonomia competitiva.
É nesse ponto que se impõe uma agenda doméstica clara. Não haverá
competitividade sustentável sem redução efetiva do Custo Brasil e
melhoria do ambiente de negócios. Isso passa por uma reforma
administrativa que aumente a eficiência do Estado, reduza desperdícios e
libere recursos para investimento, bem como por uma nova rodada de
ajustes na previdência, capaz de garantir previsibilidade fiscal e
reduzir pressões estruturais sobre a economia.
A competitividade industrial também exige redução do custo do
trabalho formal, hoje excessivamente onerado por encargos e insegurança
jurídica. Em um país que precisa gerar empregos de qualidade e combater a
informalidade, tornar o trabalho formal mais acessível é condição
indispensável para o crescimento sustentado.
Outro vetor crítico é o combate ao comércio ilegal e à
concorrência desleal, que distorcem o mercado, destroem empregos e
penalizam empresas que cumprem a legislação. A defesa da legalidade e da
concorrência justa não é protecionismo, é pré-requisito para um mercado
saudável.
Some-se a isso a necessidade de juros em padrão internacional.
Taxas de juros reais persistentemente elevadas encarecem investimentos e
inibem inovação. Sem um custo de capital compatível com o resto do
mundo, falar em produtividade torna-se exercício retórico.
No plano externo, é igualmente fundamental fortalecer os
instrumentos de legítima defesa comercial, garantindo que práticas
desleais sejam enfrentadas com rapidez e rigor, em linha com as regras
internacionais. Defender a indústria nacional de dumping e subsídios
ilegais não significa fechar a economia, mas assegurar concorrência
equilibrada.
Ao mesmo tempo, a tecnologia deixa de ser opcional. Inteligência
artificial, automação e análise de dados já impactam ganhos de
produtividade, gestão de estoques, eficiência energética e leitura de
demanda. Empresas que não avançarem nessa agenda perderão espaço,
inclusive no mercado interno. O maior risco hoje não é errar ao investir
em tecnologia, mas não investir.
Há, contudo, uma dimensão positiva nesse novo contexto. A
regionalização das cadeias produtivas, o nearshoring, favorece países
com mercado interno relevante, base industrial diversificada e
capacidade de atender padrões ambientais e sociais mais rigorosos. O
Brasil reúne esses atributos.
Além disso, o país dispõe de uma das poucas cadeias têxteis
completas do mundo, com produção relevante de fibras naturais, bem como
de algumas fibras sintéticas importantes para o setor, o que amplia
significativamente o seu potencial de atração de novos investimentos
nacionais e internacionais. Essa diversidade confere flexibilidade
produtiva, capacidade de inovação e maior aderência às exigências de
mercados cada vez mais segmentados e regulados.
A sustentabilidade, por sua vez, deixa de ser apenas discurso
reputacional e passa a ser fator econômico concreto. Circularidade,
rastreabilidade e descarbonização tornam-se exigências de mercado e
critérios de acesso a financiamento. Nesse campo, o setor têxtil
brasileiro conta com ativos importantes, como uma cadeia produtiva
estruturada e uma das agriculturas de algodão mais sustentáveis do mundo
capazes de gerar vantagem competitiva real.
Nesse contexto, a conclusão de acordos comerciais, em especial
entre Mercosul e União Europeia, assume papel estratégico. A ampliação
do acesso a mercados, com regras claras e previsíveis, fortalece a
integração do Brasil às cadeias globais de maior valor agregado e amplia
o retorno de investimentos em tecnologia, sustentabilidade e
produtividade.
O futuro do setor têxtil e de confecção não está dado. Ele
dependerá das escolhas feitas agora. Investir em tecnologia, elevar a
produtividade, qualificar pessoas e, sobretudo, avançar em reformas
estruturais que reduzam o Custo Brasil e ampliem a inserção
internacional do país são condições indispensáveis para que o setor não
apenas sobreviva, mas se fortaleça.
Num mundo mais fragmentado e tecnológico, a indústria têxtil e de
confecção brasileira tem, se tiver os elementos adequados e um ambiente
concorrencial isonômico, plena condição se consolidar como um ativo
ainda mais estratégico para o desenvolvimento econômico e social do
país.
Fernando Valente Pimentel é o diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
