Sophia Mídian lança livro que desconstrói estereótipos sobre o Nordeste e celebra a obra de Geraldo Sarno
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O que vem à mente quando pensamos no sertão brasileiro? Para muita gente, as primeiras imagens ainda são as da terra rachada, da seca e da pobreza. Mas será que elas dão conta de representar a diversidade cultural e humana dessa região? É a partir desse questionamento que a jornalista e pesquisadora baiana Sophia Mídian apresenta o livro Desconstruindo estereótipos: o devir-sertanejo na obra de Geraldo Sarno, publicado pela Editora O Candeeiro. Após estrear na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a obra será lançada em Salvador no dia 13 de novembro de 2026, às 17h, na Livraria Terra Libris, localizada no Cine Glauber Rocha, com coquetel de lançamento e um bate-papo com a autora mediado pela escritora e pesquisadora Manuela Barreto.
Uma pesquisa de mais de uma década
O livro não é apenas um estudo distante sobre a filmografia de Geraldo Sarno (1938–2022). É o resultado de anos de convivência entre a autora e o cineasta, com almoços no centro de Salvador, entrevistas conduzidas entre o saguão de aeroporto e o calçadão da orla, e longas tardes no Forte do Barbalho, onde o mestre de Poções abria a caderneta de capa marrom e lia Nietzsche em voz alta para os mais próximos. Sophia conheceu Sarno quando tinha vinte e poucos anos, indicada a ele por Eryk Rocha, filho do cineasta Glauber Rocha, e foi testemunha de um pensamento em permanente ebulição.
Essa proximidade, no entanto, não transformou o livro em uma hagiografia. A autora soube converter a intimidade em chave de leitura sem abrir mão do rigor acadêmico, e é nessa tensão entre o afeto e a teoria que a obra encontra a própria voz. O que se lê não é só um estudo sobre um cineasta, mas uma tentativa de pensar o Brasil, suas feridas coloniais, seus silêncios e sua gente invisível, a partir das imagens que um homem do sertão passou a vida construindo.
O conceito de devir-sertanejo
O eixo conceitual do livro é o devir-sertanejo, noção que a autora desenvolveu durante o Mestrado em Cultura e Sociedade na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e que, aqui, ampliada e depurada, ganha expressão definitiva. Beberndo em Deleuze e Guattari, Sophia Mídian propõe que o sertanejo representado nos documentários de Sarno não é uma identidade fixada, um estereótipo congelado entre a seca e a miséria, o fanatismo e o atraso. É um devir: movimento incessante de transformação que recusa ser capturado por qualquer nome ou enquadramento.
Para demonstrar isso, a autora recorre ao pós-estruturalismo — Foucault, Derrida, Spivak, os Estudos Subalternos — e o aplica à análise de três filmes: Viramundo (1964-1965), Viva Cariri! (1969-1970) e A Terra Queima (1984). Em cada um, personagens que existem na dobra entre o ser e o vir-a-ser, que habitam o sertão sem se deixar reduzir a ele, que migram, resistem, se reinventam e que, por isso, frustram qualquer tentativa de rótulo. O estereótipo não é refutado por argumento: é dissolvido pelo próprio movimento da câmera de Sarno. O peso da teoria se dissolve na análise dos filmes, em que a autora traduz o vocabulário pós-estruturalista sem trair sua complexidade, tornando a leitura acessível sem cair na simplificação.
Uma homenagem ao mestre e amigo
"Este livro nasceu do desejo de homenagear o cineasta e amigo Geraldo Sarno e devolver complexidade ao sertão e às pessoas historicamente reduzidas a estereótipos. Mais do que um estudo sobre sua obra, é uma reflexão sobre o Brasil profundo e sobre a potência do cinema para reinventar nossos modos de ver o outro", afirma Sophia Mídian.
A obra também se destaca por não esconder a voz de quem escreve. Sophia Mídian não se refugia atrás de uma pretensa objetividade acadêmica. Ela está presente nos almoços com o grupo do Núcleo de Audiovisual (NAU), nas entrevistas que fez como jornalista, na tarde em que Geraldo lhe deu a coletânea da revista Cinemais antes de fechar a biblioteca em Salvador. Essa presença não é vaidade autobiográfica, mas um método que nos lembra de acessar o conhecimento a partir do corpo e da memória.
Há momentos em que a prosa acadêmica cede lugar a algo mais próximo do ensaio literário. A passagem em que a autora recorda os olhos de Geraldo brilhando ao ouvir uma comparação com Tarkovski, a imagem do caderninho de capa marrom guardado sob o blusão, o mestre sacando a caneta no instante em que uma ideia "bailava pela sua cabeça" — são detalhes que nenhum arquivo preserva, e que este livro tem o mérito de salvar.
Sophia Mídian é doutora em Crítica Cultural e mestre em Cultura e Sociedade. Realizou doutorado-sanduíche na França, com bolsa da CAPES, investigando as potências poéticas e espirituais da imagem, com foco na obra do cineasta drei Tarkovski. Durante seis anos, atuou como professora na UNEB, contribuindo para a formação de estudantes na área de Comunicação. Como realizadora e pesquisadora de cinema e audiovisual, dirigiu documentários e curtas-metragens. Em 2026, lançou o livro de poesia Na Borda, pela Caravana Editorial, e realizou o pré-lançamento de Desconstruindo estereótipos: o devir-sertanejo na obra de Geraldo Sarno (editora O Candeeiro) na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, obra que resulta de sua pesquisa sobre cinema, pós-estruturalismo e estudos subalternos.
Mediação
O bate-papo será mediado por Manuela Barreto, graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia e em Comunicação Social pela Universidade Católica do Salvador. Mestra em Literatura, Memória e Representações Identitárias pela Universidade Estadual de Feira de Santana, tem produção artística publicada no site Mapa da Palavra e no site Escritoras Negras da Bahia, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Publicou o livro de poemas Para Onde Vão os Pássaros à Noite?, pela Editora Mondru. Atualmente, é doutoranda no Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Estudos Étnicos e Africanos e participou do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE/Capes) na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).
Serviço
O quê: Lançamento do livro Desconstruindo estereótipos: o devir-sertanejo na obra de Geraldo Sarno, com bate-papo mediado por Manuela Barreto
Autora: Sophia Mídian
Quando: 13 de novembro de 2026, às 17h
Onde: Livraria Terra Libris – Cine Glauber Rocha, Salvador (BA)
Editora: O Candeeiro
Informações: Entrada gratuita
