Divulgação / Crea-BA
Interdição de 12 igrejas em Salvador acende alerta para manutenção preventiva das edificações
A interdição de 12 igrejas em Salvador entre 2025 e 2026, após vistorias apontarem risco alto ou muito alto, acendeu um alerta para a importância da inspeção e da manutenção preventiva das edificações. Segundo a Defesa Civil de Salvador (Codesal), foram identificadas nos templos manifestações patológicas graves, como deterioração de estruturas de madeira das coberturas e dos assoalhos, oxidação de ferragens, infiltrações generalizadas, fissuras e rachaduras nas alvenarias.
Entre os imóveis interditados está a Igreja de São Miguel, no Centro Histórico. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, o templo apresenta desabamento parcial do telhado sobre a capela-mor, madeiras apodrecidas, infestação de cupins, infiltrações, instalações elétricas precárias e aberturas na cobertura, conforme informações do Ministério Público Federal (MPF).
Em 14 de agosto, o MPF ajuizou uma ação civil pública e pediu à Justiça Federal a adoção de medidas urgentes. Entre as solicitações estão o isolamento da área de risco pelo município em até 15 dias e o início das intervenções emergenciais em até 30 dias. Os prazos integram os pedidos apresentados pelo órgão e dependem de decisão judicial.
Para o engenheiro civil e vice-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA), André Tavares, a situação demonstra que a manutenção não pode ser adiada até que a edificação apresente risco aos usuários.
“A ausência de manutenção também é uma decisão, e normalmente uma decisão que aumenta o custo e o risco no futuro. Quando os sinais são identificados precocemente, muitas intervenções podem ser simples e de menor custo. Quando o problema é ignorado por anos, uma infiltração pode atingir elementos de madeira, uma corrosão pode comprometer uma ligação e uma deterioração localizada pode evoluir para uma situação de risco”, afirma.
O coordenador do Programa Jovem Engenheiro do Crea-BA, engenheiro civil Gildeon Oliveira de Sena, explica que fissuras, rachaduras, infiltrações, deformações e deteriorações devem ser entendidas como indícios de processos que precisam ser investigados. Nenhuma dessas manifestações, isoladamente, é suficiente para determinar o nível de risco do imóvel.
“O que exige avaliação imediata são manifestações que estejam evoluindo, acompanhadas de deformações, perda significativa de material ou qualquer indício de comprometimento de elementos estruturais. Nesses casos, o caminho não é simplesmente reparar o que está aparente. É necessário realizar uma avaliação técnica para identificar a causa, dimensionar o risco e definir a intervenção adequada. A manifestação patológica é o sintoma e o trabalho da engenharia é descobrir a doença”, explica Gildeon.
Nas estruturas de madeira, devem ser observados sinais de apodrecimento, deformações e ataque de organismos, como cupins. As infiltrações podem estar associadas a falhas na impermeabilização ou na cobertura e contribuir para a deterioração de outros elementos. No concreto armado, a presença contínua de umidade pode favorecer a corrosão das armaduras e, com a evolução do processo, afetar o desempenho e a segurança da construção.
De acordo com Gildeon, as inspeções periódicas permitem identificar esses problemas ainda em estágio inicial, compreender suas causas e programar as intervenções antes que a degradação avance. Um plano de manutenção deve definir os elementos que precisam ser inspecionados, a frequência das verificações e as medidas necessárias para conservar a edificação.
“Em uma edificação de uso coletivo, como é o caso das igrejas, a manutenção deixa de ser apenas uma questão patrimonial e passa a ser também uma questão de segurança dos usuários. Além de preservar o imóvel, a manutenção preventiva reduz custos e aumenta a vida útil da edificação”, acrescenta.
Atuação técnica e responsabilidade profissional
O Crea-BA acompanha os desdobramentos relacionados à Igreja de São Miguel. Dentro de suas atribuições, cabe ao Conselho fiscalizar o exercício profissional e verificar se os serviços de engenharia são executados por profissionais legalmente habilitados e com a respectiva responsabilidade técnica.
Essa fiscalização poderá abranger serviços como inspeções prediais, avaliações da segurança estrutural, levantamento das manifestações patológicas, ensaios, escoramentos, estabilizações emergenciais, projetos de recuperação ou reforço estrutural, recuperação de coberturas, instalações elétricas e acompanhamento da execução.
O Conselho também buscará identificar os profissionais e as empresas responsáveis pelos serviços já realizados e pelas futuras intervenções, verificando a existência das respectivas Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) e a compatibilidade das atividades com as atribuições profissionais dos responsáveis.
André Tavares ressalta que uma vistoria emergencial não substitui um diagnóstico técnico completo. A observação visual pode identificar sinais de alerta, mas a definição das causas, da extensão dos danos e dos riscos pode exigir inspeções, ensaios e investigações complementares.
“Todos esses serviços devem ser realizados por profissionais habilitados e acompanhados da respectiva ART, porque ela estabelece formalmente a responsabilidade técnica pelo trabalho realizado. Em uma situação de emergência, isso é ainda mais importante: é preciso que exista um profissional responsável, que faça o diagnóstico, especifique a solução e acompanhe tecnicamente a execução”, explica.
Por se tratar de um imóvel tombado, as intervenções na Igreja de São Miguel também precisam observar as exigências dos órgãos de preservação. Segundo André, a definição das medidas deve conciliar segurança, desempenho e preservação das características históricas e arquitetônicas, o que pode demandar uma equipe multidisciplinar formada por profissionais da engenharia, arquitetura e restauração.
Além da fiscalização, o vice-presidente defende a articulação entre os órgãos públicos, o responsável pelo imóvel e os profissionais envolvidos. “A prioridade deve ser a segurança das pessoas e a estabilização e preservação do patrimônio. O caso das igrejas históricas de Salvador deve servir como alerta: preservar patrimônio não significa apenas restaurá-lo quando ele chega a uma situação crítica. Preservação começa com inspeção, manutenção, responsabilidade técnica e planejamento”, conclui.
Capacita Jovem aborda patologia das construções
O tema será discutido nesta quinta-feira (27), às 19h30, durante a segunda edição do Capacita Jovem, promovido pelo Programa Jovem Engenheiro do Crea-BA. A transmissão será realizada pelo canal do Conselho no YouTube, com participação gratuita.
Conduzida por Gildeon Oliveira de Sena, a atividade apresentará princípios da engenharia diagnóstica, com orientações sobre observação da edificação, identificação de manifestações patológicas, levantamento de informações, investigação das causas e elaboração de diagnósticos que subsidiem as decisões técnicas.
“A proposta é mostrar que patologia das construções não é simplesmente aprender a identificar uma fissura, uma infiltração ou uma corrosão. É aprender a investigar o problema, entender suas causas, avaliar suas consequências e propor soluções tecnicamente adequadas”, afirma Gildeon.
A capacitação também abordará as possibilidades de atuação profissional na área. Segundo o coordenador, esse trabalho exige conhecimento das normas, capacidade de investigação, responsabilidade técnica e decisões fundamentadas em evidências.
SERVIÇO
O quê: Capacita Jovem — live sobre patologia das construçõesQuando: quinta-feira, 27 de agosto
Horário: 19h30
Onde: canal do Crea-BA no YouTube
Inscrições: gratuitas, pela plataforma Sympla
Por Camila Fiúza
