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Saúde íntima na adolescência: cuidados simples podem prevenir infecções e doenças
A adolescência é marcada por mudanças físicas, hormonais e emocionais. Nesse período, orientações sobre saúde íntima masculina são tão importantes quanto outros cuidados com a saúde, mas muitas famílias ainda buscam a melhor forma de abordar o tema. Enquanto pais, responsáveis e escolas costumam orientar sobre alimentação, estudos e segurança no trânsito, conversas sobre higiene genital, prevenção de infecções e hábitos de autocuidado ainda são pouco frequentes. A falta de orientação sobre esses cuidados pode trazer consequências ao longo da vida, favorecendo infecções recorrentes, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), inflamações e até o câncer de pênis. Embora rara, a doença ainda apresenta índices preocupantes no Brasil e está associada, entre outros fatores de risco, à higiene íntima inadequada.
Para Adriano Caldeira, professor da Afya Salvador e médico urologista, ensinar sobre saúde íntima aos adolescentes deveria ser encarado como uma etapa natural da educação em saúde, da mesma forma que se ensina a escovar os dentes ou lavar as mãos. "Há muitos homens que chegam ao consultório sem nunca terem recebido orientações básicas sobre o próprio corpo. Eles nunca receberam explicações simples sobre como cuidar da própria região íntima. Muitos aprenderam com amigos, pela internet ou simplesmente nunca aprenderam. A higiene íntima não tem relação apenas com sexualidade. Quando realizada de forma inadequada, aumenta o risco de inflamações, infecções, fimose adquirida, infecção urinária e, em alguns casos, favorece o acúmulo de esmegma, que está associado a um maior risco de câncer de pênis."
Para o especialista, um dos maiores desafios é tornar esse tema mais presente no dia a dia das famílias. Enquanto muitos adolescentes têm vergonha de fazer perguntas, pais e responsáveis podem não se sentir preparados para iniciar essa conversa. Por isso, é importante buscar a orientação de um médico especialista. Entre as recomendações básicas estão a higiene correta da região genital, incluindo a retração do prepúcio durante a lavagem; o reconhecimento dos primeiros sinais de infecções, como vermelhidão, secreções, coceira e dor ao urinar; o uso consciente de preservativos desde o início da vida sexual; a escolha de roupas íntimas que favoreçam a ventilação da pele; e os cuidados com a remoção dos pelos pubianos, evitando métodos que aumentem o risco de foliculite e pequenas lesões na pele.
O urologista lembra ainda que tecidos muito abafados favorecem a proliferação de fungos, enquanto pequenas lesões provocadas pela depilação podem facilitar infecções bacterianas. Já a higiene inadequada favorece o acúmulo de esmegma, condição associada ao aumento do risco de inflamações e também do câncer de pênis, responsável por cerca de 2 mil novos casos por ano e aproximadamente 600 mortes anuais, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde.
Outro ponto importante é que algumas infecções sexualmente transmissíveis costumam apresentar sinais discretos no início. Gonorreia e clamídia podem provocar secreção e ardência ao urinar; o HPV pode causar verrugas; e a sífilis pode provocar feridas que, muitas vezes, não causam dor e acabam sendo ignoradas. Quanto mais cedo esses sinais forem reconhecidos, maiores são as chances de tratamento e menor o risco de transmissão, por isso, é importante estar atento e procurar um especialista médico.
Números oficiais apontam que essa orientação não pode esperar até a fase adulta. Somente em 2025, segundo o Boletim Epidemiológico de Sífilis do Ministério da Saúde, o Brasil registrou mais de 256 mil casos de sífilis adquirida, sendo os jovens um dos grupos mais vulneráveis às infecções sexualmente transmissíveis em razão do início da vida sexual e do uso irregular do preservativo.
"Vergonha ainda é uma das maiores barreiras para o diagnóstico precoce. Muitos adolescentes esperam semanas ou até meses para procurar ajuda, acreditando que o problema vai desaparecer sozinho. Feridas que não cicatrizam, verrugas, caroços, dor persistente, secreção, sangramento, dificuldade para expor a glande, alterações importantes na pele, aumento do volume dos testículos ou dor testicular intensa são sinais que merecem avaliação médica. Quanto mais cedo essas alterações são investigadas, maiores são as chances de um tratamento simples e eficaz. Isso vale tanto para infecções quanto para doenças mais graves. Em situações de urgência, como a torção testicular, por exemplo, procurar atendimento nas primeiras horas pode ser decisivo para preservar o testículo."
O especialista destaca que conversar sobre saúde íntima não precisa ser um momento constrangedor, mas uma oportunidade para promover informação, autonomia e confiança. "Explicar como fazer a higiene corretamente, orientar sobre as mudanças da puberdade e conversar sobre saúde sexual de forma aberta são atitudes que protegem muito mais do que apenas a saúde física. Essas conversas podem fortalecer a relação de confiança entre adolescentes e seus responsáveis. Quando o diálogo acontece sem julgamentos e com naturalidade, o jovem tende a se sentir mais seguro para esclarecer dúvidas, compartilhar inseguranças e buscar ajuda diante de qualquer alteração na região íntima. Isso aumenta as chances de que ele procure atendimento precocemente, em vez de esconder um problema por vergonha", conclui.
Por Flamarion Reis
