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Após viver vilão em Cangaço Novo, Bruno Bellarmino volta às telas em comédia inspirada em história real com Alexandre Nero
Depois de conquistar o público com um personagem marcado pela tensão e pela violência em Cangaço Novo, Bruno Bellarmino está de volta às telas, desta vez em um registro completamente diferente. No próximo dia 29, o ator poderá ser visto em Sem Pai Nem Mãe, comédia dirigida por André Klotzel, em que interpreta Abadá, um receptador de produtos roubados que acaba envolvido em uma sucessão de situações inusitadas. Se antes o crime aparecia sob uma ótica dramática, agora ele surge como ponto de partida para uma história bem-humorada inspirada em um caso real.
O longa nasceu de uma experiência vivida pelo próprio André Klotzel. Após ter o notebook furtado, o diretor descobriu que o computador registrava automaticamente imagens da tela a cada poucos segundos. As fotografias passaram a revelar quem estava usando o aparelho, permitindo acompanhar o caminho percorrido pelo objeto depois do roubo até chegar ao receptador, personagem vivido por Bruno.
"Eu interpreto o Abadá. Ele tem uma loja de celulares na quebrada e acaba entrando nessa história de um jeito muito divertido. Foi um filme muito gostoso de fazer", conta o ator. O elenco reúne ainda Alexandre Nero e marca mais um trabalho de Klotzel, diretor responsável por clássicos do cinema brasileiro como A Marvada Carne e Capitalismo Selvagem.
O teatro como ponto de partida
Enquanto aguarda a exibição do longa, Bruno está mergulhado em dois novos projetos teatrais desenvolvidos dentro de um grupo de pesquisa do qual faz parte. Um deles é um espetáculo infantojuvenil que aborda as mudanças climáticas a partir de uma livre inspiração em Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare. O outro parte da obra do escritor uruguaio Eduardo Galeano para refletir sobre a identidade latino-americana.
Apesar do momento positivo no audiovisual, o ator garante que nunca pensa no teatro como um plano B. "Nunca vou deixar de fazer teatro, porque é a minha essência. Como acontece com a maioria dos atores, eu também trabalho com audiovisual. É maravilhoso quando a gente consegue manter uma sequência de trabalhos. Mas o teatro ocupa um lugar diferente na minha vida.
Além de ser a minha profissão, ele é a minha válvula de escape diante de todas as adversidades. É o lugar onde eu me reconecto comigo mesmo. Quando eu sinto que me perdi de mim, eu volto para o teatro. E, de alguma forma, ele sempre me encontra de novo."
Shakespeare, Galeano e o palco como espaço de reflexão
No espetáculo voltado ao público infantojuvenil, o desafio é abordar a crise climática de uma maneira acessível, sem abrir mão da imaginação. "O texto parte de uma livre inspiração em Sonho de uma Noite de Verão e leva os personagens para uma espécie de fórum sobre ecologia. O teatro cria imagens, desperta emoções e faz com que assuntos tão urgentes sejam vividos, e não apenas explicados."
Já o segundo projeto nasceu a partir de rodas de leitura sobre a obra de Eduardo Galeano e acabou se transformando em uma pesquisa cênica. "Eu já conhecia a obra do Galeano, principalmente As Veias Abertas da América Latina, que é um livro que me marcou muito. Me reconheço nessa identidade latino-americana. Muitas das nossas alegrias, dores e contradições também pertencem a quem nasceu no Equador, na Bolívia, no Chile ou na Argentina. Foi dessa pesquisa que surgiu a vontade de transformar essas reflexões em teatro."
Os bastidores do teatro independente
Como acontece com boa parte da produção teatral brasileira, os dois espetáculos ainda dependem da captação de recursos para chegar ao palco. Bruno acompanha de perto esse processo e acredita que, embora as leis de incentivo sejam fundamentais, ainda há muitos desafios para quem vive da cultura.
"A aprovação em um edital é só o começo. Depois dela, começa uma nova etapa, que é a captação de recursos para que o projeto realmente aconteça. O teatro é uma arte profundamente coletiva, com atores, diretores, técnicos, iluminadores, figurinistas e produtores. Todos precisam ser remunerados. As leis de incentivo funcionam, mas existe uma quantidade enorme de grupos disputando recursos que ainda são insuficientes."
Enquanto celebra a estreia de Sem Pai Nem Mãe, Bruno segue aberto aos próximos convites para o audiovisual, mas sem deixar de lado o lugar que considera seu ponto de partida. “Aprendi que essa profissão é feita de ciclos. Entre um trabalho e outro, o mais importante é continuar estudando, criando e mantendo a curiosidade viva. É isso que me prepara para o próximo personagem."
Por Natálie Iggnacio
