Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
Microplásticos contaminam sedimentos no litoral da Bahia
Pesquisa inédita realizada no litoral da Bahia evidenciou a contaminação por microplásticos disseminada por toda a costa, com identificação de presença significativa desses materiais em todos os locais analisados: trechos do litoral norte e sul do Estado e a Baía de Todos os Santos. Apesar da conhecida ameaça que a contaminação plástica representa, e de vários estudos documentando sua presença no litoral brasileiro, ainda são escassas as pesquisas no litoral baiano, e o estudo, publicado no periódico internacional Journal of Soils and Sediments, é o primeiro a identificar e quantificar microplásticos no sedimento marinho na Bahia.
A pesquisa foi feita em colaboração entre grupo de pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) liderado por Jailson Bittencourt e o Laboratório de Química Ambiental (LQA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), liderado por Cassiana Montagner, docente no Instituto de Química (IQ). Rayane Sorrentino e Sabrina Martinez, da UFBA, fizeram a coleta das amostras de sedimento, em oito pontos nas quatro regiões estudadas. Em cada ponto, foi coletado meio quilo de sedimentos, e as amostras foram encaminhadas para o LQA.
Em Campinas, Cristiane Vidal, profissional de pesquisa no IQ, ficou responsável pelas análises que levaram à identificação, à quantificação e à caracterização dos microplásticos. Além da presença disseminada em todos os locais de coleta, os resultados também indicaram associação entre as concentrações mais altas e as áreas mais densamente povoadas, em Itaparica e Salvador, ao redor da Baía de Todos os Santos. Também houve preponderância de microfibras, em relação a fragmentos, o que é esperado, uma vez que elas tendem a afundar e, assim, se depositar no fundo do mar.
Sedimentos marinhos funcionam como uma espécie de “arquivo” ambiental: ao longo do tempo, partículas que flutuam na água, como os microplásticos, podem se depositar no fundo e ficar retidas ali por longos períodos. Esse processo transforma o solo dos ambientes aquáticos não apenas em um reservatório físico de poluentes, mas também em fonte potencial de exposição para espécies bentônicas: organismos que vivem no fundo, como pequenos crustáceos, moluscos e outros invertebrados. Acumuladas nos sedimentos, as partículas de plástico continuam o processo de degradação, se tornam ainda menores e, assim, podem ser ingeridas por esses organismos durante a alimentação ou na respiração, desencadeando respostas fisiológicas que afetam a saúde individual e, em última instância, o funcionamento de populações inteiras.
Diante dos achados, o grupo autor do artigo indica, como necessidades, aprimoramentos na infraestrutura de saneamento – uma vez que é o esgoto uma das principais formas pelas quais essas partículas chegam até o oceano – e na coleta seletiva de resíduos, o controle do turismo intensivo e, também, a realização de novos estudos para melhor compreensão da situação e dos impactos reais sobre organismos vivos.
Cassiana Montagner é a coordenadora do projeto temático PlastAgrotox (#22/12104-4), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto investiga destinos e impactos de microplásticos e agroquímicos em ambientes aquáticos e terrestres.
Por Thalef Santos
