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Dia das Mães: mulheres negras sustentam lares, enfrentam desigualdades e acumulam jornadas invisibilizadas no Brasil
No
Brasil, o Dia das Mães também é um convite à reflexão sobre quem
sustenta, na prática, milhões de famílias. CRIOLA, organização de
mulheres negras, chama atenção para a realidade de mulheres que,
majoritariamente nas periferias, favelas e comunidades, lideram seus
lares e acumulam responsabilidades que vão muito além da maternidade.
“A
maioria dessas mulheres sai de casa muito cedo para trabalhar e só
retorna à noite. São mães extremamente dedicadas, mas a sobrecarga
impede que tenham o tempo necessário para acompanhar de perto a educação
e os cuidados com os filhos”, afirma Dona Zica, associada da CRIOLA e
liderança histórica do movimento de trabalhadoras domésticas no Brasil.
Dados
do IBGE mostram que as mulheres são responsáveis por 49,1% dos
domicílios brasileiros. Entre esses lares, mulheres negras são maioria
entre as chefes de família — realidade diretamente associada a maiores
desafios socioeconômicos.
Cerca
de 70% dos domicílios chefiados por mulheres negras vivem com renda de
até um salário mínimo, segundo a Rede de Observatórios da Segurança
Pública. Além disso, 41,3% das mulheres pretas ou pardas estão abaixo da
linha da pobreza, quase o dobro do percentual entre mulheres brancas,
de acordo com o IBGE.
“A
sobrecarga de trabalho vivida por mulheres negras não é individual —
ela é resultado de uma organização social do cuidado marcada por
desigualdades históricas. São mulheres que acumulam o trabalho doméstico
não remunerado com atividades remuneradas, muitas vezes em condições
precárias”, afirma Juliana Martins, assistente de coordenação em
política pública e Incidência Política na CRIOLA.
Grande
parte dessas mulheres está inserida em ocupações precarizadas. No
Brasil, 69,9% das pessoas que exercem trabalho doméstico remunerado são
mulheres negras, segundo o Ipea.
“O
racismo estrutural organiza o mercado de trabalho de forma hierárquica
no Brasil, concentrando mulheres negras nos postos mais precarizados e
com menor proteção social. Isso não é coincidência, mas resultado de um
sistema que limita o acesso a direitos”, completa Juliana Martins.
“Estamos
falando, em grande parte, de mulheres negras, mães solo, que assumem
sozinhas o papel de sustentar e cuidar da família. Muitas vivem nas
periferias, sem emprego fixo e ainda são injustamente julgadas como se
essa realidade fosse uma escolha”, destaca Dona Zica.
A
rotina dessas mães inclui longas jornadas de trabalho, deslocamentos
extensos e uma segunda jornada dentro de casa. Mesmo inseridas no
mercado, mulheres pretas ou pardas dedicam mais tempo às tarefas
domésticas e de cuidado do que outros grupos, segundo a PNAD Contínua do
IBGE.
Esse
cenário impacta diretamente a qualidade de vida dessas famílias, que
enfrentam maior vulnerabilidade social e insegurança alimentar.
Para CRIOLA, reconhecer essa realidade é essencial para ampliar o debate sobre maternidade no Brasil. A organização destaca a urgência de políticas públicas que garantam dignidade, proteção e equidade para essas mulheres que sustentam, diariamente, suas famílias e territórios.
