Foto: Luís Nova/Correio Braziliense
Da periferia ao palco: como os Pontos de Cultura formam artistas e transformam trajetórias
Em um país marcado por reconstrução no
acesso à cultura, os Pontos de Cultura têm se consolidado como espaços
fundamentais de formação artística e cidadã. No Distrito Federal, onde
há 198 pontos e pontões reconhecidos, essas iniciativas atuam
diretamente na descoberta de talentos, no fortalecimento de identidades e
na criação de caminhos possíveis para jovens artistas que, muitas
vezes, não se viam nesse lugar.
A
trajetória de Matheus Nascimento, do Espaço Inventado, revela como o
primeiro contato com um Ponto de Cultura pode ser transformador. “Meu
primeiro contato com o espaço foi em uma roda de capoeira que vim
participar, fiquei encantado com o local, parecia que tinha atravessado
um portal e desde então entrei no grupo de capoeira que treina no
espaço, me envolvi cada vez mais com os eventos e pessoas que frequentam
o espaço e a Vila Cobra Coral. E de um ponto de encontro, cultura e
apoio, hoje, o espaço também virou minha casa”, conta.
A
experiência no espaço não se limita à vivência cultural, mas também se
desdobra em processos de formação artística e construção de identidade.
“Sendo um local de muita vivência, aqui é um ponto de encontro de muitos
artistas e consequentemente, vou conhecendo novos trabalhos e
possibilidades através do espaço. Também é aqui que venho desenvolvendo o
que considero meu trabalho de vida dentro da fotografia, registrando os
movimentos e saberes da cultura afro-brasileira”, explica.
Ao
mesmo tempo, a fala de Matheus evidencia um dos desafios ainda
presentes no setor: a profissionalização na cultura. “Creio que não, até
hoje venho ‘tateando’ esse local de profissionalização. É possível ser
um profissional da cultura, mas isso não é uma realidade pra todos… no
meu caso, ainda transito entre fazer profissionalmente e fazer quando
dá, fazer como hobby, fazer pela importância que tem para memória local,
ainda estou tentando identificar esse caminho profissional”, afirma.
Mesmo
diante dessas complexidades, o papel dos Pontos de Cultura é visto por
ele como estruturante. “É necessário ter locais para o fazer artístico,
para aprender, para conhecer quem veio antes de você. E os pontos de
cultura são meios que permitem a formação e descoberta de novos
artistas. Principalmente, a autodescoberta, muitas pessoas não sabem que
é possível ganhar dinheiro com cultura, não sabem nem que podem ser
artistas”, destaca.
Essa
dimensão de descoberta e transformação também aparece na atuação do
coletivo Distrito Drag, representado por Ruth Venceremos, produtora
cultural e cofundadora. Criado em 2017, o grupo nasce de uma construção
coletiva que já se conecta, desde o início, com a rede Cultura Viva. “O
Distrito Drag é fruto de uma construção coletiva entre artistas e
ativistas do DF. Desde o início, mantemos laços com outros coletivos e
Pontos de Cultura, porque acreditamos que fortalecer a cultura passa por
construir redes”, afirma.
A
arte drag, nesse contexto, se apresenta como uma linguagem potente de
transformação social. “Ela provoca reflexões sobre papéis de gênero,
sensibiliza e toca em temas importantes. É expressão de luta e
resistência da comunidade LGBTQIA+”, explica. Para além da cena
artística, o impacto também se dá no território. “Mudamos o imaginário
sobre as pessoas LGBT no DF, promovendo capacitação, inserção no mercado
cultural e inspirando outras iniciativas”, destaca. Segundo ela,
espaços culturais comunitários têm papel central nesse processo.
“Espaços culturais comunitários protagonizados por pessoas LGBTQIA+ são
fundamentais para incluir e dar visibilidade a corpos dissidentes. Eles
já são, em si, espaços de diversidade.”
A
valorização das expressões populares também aparece como eixo central
das transformações promovidas pelos Pontos de Cultura. É o que destaca
Jorge Simas, agente cultural e integrante da Mamãe Taguá, iniciativa
ligada à cultura carnavalesca no DF. “O Mamãe Taguá nasceu de um grupo
de artistas com atuação na cidade, que queriam marcar um momento, com um
grupo carnavalesco de dramaturgia e circense”, explica.
Para
ele, os Pontos de Cultura cumprem um papel estratégico na articulação
entre comunidade e poder público. “Os pontos de cultura fazem a
comunicação da comunidade com o estado, que houve os grupos de arte e
possibilita esses grupos de se comunicarem com outras, mantendo uma rede
de ações populares”, afirma.
Essa
atuação reverbera diretamente no território. “Acabamos por sermos a voz
da comunidade para o estado, com as nossas ações artísticas. O
reconhecimento da comunidade faz com que possamos representar os anseios
desta comunidade no que diz respeito à arte”, destaca. E completa ao
falar da importância de espaços nacionais de visibilidade: “Essa
visibilidade nos referenda para buscarmos espaço a nível local e
nacional.”
Essas
trajetórias dialogam com histórias já conhecidas do grande público, como
as de Silvero Pereira, que também teve contato com iniciativas
culturais de base comunitária em seus percursos. Em comum, essas
experiências mostram que a cultura, quando acessível e enraizada nos
territórios, pode ser um fator decisivo na transformação de trajetórias
individuais e coletivas.
Esse
conjunto de histórias e experiências estará reunido na 6ª Teia Nacional
dos Pontos de Cultura, que se consolida como um espaço de encontro,
reconhecimento e articulação dessas trajetórias que nascem nos
territórios e ganham projeção nacional. Como resume a representante do
Distrito Drag: “Eventos como a Teia são essenciais. Eles conectam boas
práticas culturais, justiça climática e diversidade, inspirando e
fortalecendo transformações em outros territórios.”
Rede Nacional de Cultura Viva
Atualmente,
o Brasil conta com mais de 15,5 mil organizações reconhecidas como
pontos de cultura, que podem acessar políticas públicas de fomento à
cultura.
O Cadastro
Nacional de Pontos e Pontões de Cultura é o principal instrumento da
Política Nacional de Cultura Viva (PNCV), que há mais de duas décadas
fortalece iniciativas culturais comunitárias e amplia o acesso a
recursos públicos para ações culturais realizadas nos territórios.
Coordenado
pelo Ministério da Cultura, o Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de
Cultura alcançou organizações reconhecidas em todo o país, presentes nos
26 estados e no Distrito Federal. Entre janeiro de 2023 e março de
2026, foram emitidos mais de 10 mil certificados, um crescimento de
246,5% em relação aos 4.329 certificados concedidos entre 2004 e 2023.
Espalhados
por todo o território nacional, os Pontos de Cultura realizam
atividades que vão de oficinas artísticas e formação cultural à
preservação de festas populares, pesquisas sobre patrimônio cultural e
ações de valorização das identidades locais.
Teia Nacional
Entre
os dias 19 a 24 de maio de 2026, será realizada a 6ª Teia Nacional dos
Pontos de Cultura, maior encontro da rede Cultura Viva no país. A edição
acontece em Aracruz (ES), marcando a retomada do evento após 12 anos e,
pela primeira vez, em território indígena. Com o tema “Pontos de
Cultura pela Justiça Climática”, a Teia reunirá agentes culturais,
mestres e mestras das culturas populares, povos e comunidades
tradicionais, gestores públicos e representantes da sociedade civil de
todas as regiões do Brasil.
O
evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado
do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos
Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do
Espírito Santo (Ifes), o Sesc, a TVE, Unesco e o programa IberCultura
Viva.
Fonte: Ascom/MinC
