Márcio Barboza, técnico em agricultura, gerente de exportação e vendas internacionais, especialista em expansão de mercado, planejamento estratégico e liderança de equipes /Foto: Divulgação
Agronegócio americano tem oportunidades para a indústria brasileira
A entrada de produtos desenvolvidos e fabricados no Brasil no mercado agrícola dos Estados Unidos representa uma oportunidade estratégica. Os americanos valorizam inovação tecnológica, eficiência operacional, confiabilidade e bom custo-benefício, características nas quais muitas empresas nacionais apresentam elevada competitividade, especialmente em segmentos como o preparo de solo, plantio, implementos e soluções adaptadas a diferentes realidades produtivas.
Entre as melhores possibilidades para as companhias brasileiras, que já possuem maturidade tecnológica e capacidade de produção, estão as áreas de preparo de solo e plantio, setores estes, extremamente desenvolvidos, mas que também apresentam lacunas importantes. “O Brasil tem uma indústria experiente, adaptada à agricultura intensiva e altamente tecnificada. Esse cenário cria oportunidades reais para aquelas que almejam o mercado norte-americano e saibam se posicionar corretamente”, diz Márcio Barboza, técnico em agricultura, gerente de exportação e vendas internacionais, especialista em expansão de mercado, planejamento estratégico e liderança de equipes.
Planejamento e estratégia
A abertura do mercado americano representa uma oportunidade concreta de expansão, diversificação e fortalecimento das empresas brasileiras do agro no cenário internacional. Com planejamento estruturado, estratégia comercial bem definida e foco na construção de reputação, é possível transformar possibilidade em um importante vetor de crescimento e posicionamento global.
Segundo o especialista, um dos primeiros passos para ingressar nesse mercado é garantir que os produtos estejam em conformidade com as normas técnicas e regulatórias locais. “Certificações específicas, adequação a padrões de segurança, emissões, qualidade e desempenho são fundamentais para que o produto seja autorizado a ser comercializado no país. Além disso, é indispensável atender às exigências fiscais, alfandegárias e de compliance, assegurando transparência e conformidade em todo o processo”, destacou.
Cientes dessas exigências, o passo seguinte, segundo Barboza, é a indústria brasileira entender, de fato, as dores e necessidades da agricultura americana, ou seja, quais soluções teriam maior relevância naquele mercado. Esse estudo passa por características de clima, solo, bem como pela potência dos tratores em cada região.
Com essas informações em mãos, inicia-se o processo de nacionalização do produto, ou seja, a adaptação de soluções já consagradas no Brasil para a realidade americana, respeitando as características locais. “Essa adequação é fundamental para obter sucesso. Tenho mais de 18 anos de experiência no mercado norte-americano, e grande parte do meu foco foi em manutenção de mercado e abertura de novos mercados. Por isso digo que a tecnologia ou solução precisa ser versátil”, reiterou.
Outro ponto estratégico apontado pelo profissional é a definição de uma estrutura comercial eficiente em território americano. Existem diferentes modelos de atuação, sendo os mais comuns a parceria com distribuidores exclusivos, representantes comerciais, acordos com fabricantes locais ou a criação de subsidiárias próprias nos EUA. Entre essas opções, o modelo de distribuição é geralmente o caminho mais rápido e viável para empresas em fase inicial de internacionalização, pois permite acesso imediato a canais de venda, rede de relacionamento e conhecimento do mercado local, reduzindo custos operacionais e acelerando a inserção da marca.
Encontrar uma revenda que realmente entenda as necessidades de seus clientes pode ser um ponto importante e estratégico, pois a empresa brasileira conseguirá criar credibilidade e solucionar problemas de forma rentável e eficiente. Outra alternativa para ganhar mercado mais rapidamente é o investimento na construção de uma estrutura no país. “Ter um local com estoque para rápida reposição é uma boa estratégia, pois os produtores americanos e as revendas valorizam agilidade”, diz Barboza.
Apesar das oportunidades, esse mercado é altamente competitivo e dominado por empresas globais consolidadas, que possuem forte presença e reconhecimento. Nesse contexto, as indústrias brasileiras precisam construir sua marca de maneira gradual. “A confiança do produtor e dos distribuidores é conquistada ao longo do tempo, por meio da consistência na qualidade, suporte técnico eficiente e confiabilidade no desempenho dos produtos”, reforçou o especialista.
Oportunidade no solo
A compactação do solo tem se consolidado como um desafio crescente, principalmente no Meio-Oeste americano, impactando diretamente a produtividade e a sustentabilidade das lavouras. Nesse cenário, abre-se uma grande oportunidade para equipamentos voltados à descompactação eficiente, como subsoladores de alta performance e escarificadores com geometria aprimorada.
Soluções que demandam menor potência dos tratores e oferecem maior eficiência energética ganham destaque ao aliarem redução de custos operacionais e melhor aproveitamento do solo. Empresas brasileiras, com sólido know-how no desenvolvimento de implementos agrícolas para diferentes condições de campo, encontram nesse contexto um espaço estratégico para expandir sua atuação internacional.
Somado a isso, a agricultura regenerativa e as práticas de conservação do solo representam uma tendência cada vez mais forte nos EUA, criando um ambiente favorável para as companhias brasileiras do setor. Esse movimento amplia a demanda por equipamentos de plantio direto, máquinas que preservem a estrutura do solo e soluções que reduzam o revolvimento, alinhadas a sistemas produtivos mais sustentáveis e eficientes.
Trata-se de uma área em que o Brasil é referência mundial, especialmente pelo avanço tecnológico e pela experiência consolidada no manejo conservacionista em larga escala, o que gera oportunidades estratégicas para a expansão internacional de fabricantes nacionais. “Mesmo utilizando alternativas como sistemas de esteira para evitar a compactação, devido à movimentação intensa o solo é afetado. Dessa forma, abre-se uma fronteira para empresas brasileiras entrarem com soluções capazes de resolver essa dor, por meio de subsolagem ou gradagem mais profunda. Afinal, o agricultor americano e a indústria também estão preocupados com a conservação do solo e a agricultura regenerativa”, finaliza Barboza.
Por Kassi Bonissoni
