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Genética zebuína da Embrapa Cerrados é valorizada pelo mercado
Os programas de melhoramento genético e seleção de bovinos de raças zebuínas de corte e de leite conduzidos pela Embrapa Cerrados (DF) têm oferecido ao mercado animais superiores e adequados às necessidades dos pecuaristas do Brasil Central, com valorização comprovada nos últimos leilões Nelore BRGN e do Centro de Tecnologia para Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL), promovidos pela Unidade em setembro. Na comparação com os animais comerciais, os machos e fêmeas puros de origem (PO) foram arrematados a preços médios até 132% maiores, conforme a raça e o sexo.
Realizado em Brasília de forma presencial e on-line, o 10º Leilão Nelore BRGN comercializou 38 bovinos Nelore PO mochos (sem chifres) e padrão com a marca genética da Embrapa por um valor médio de R$ 11.415,26, enquanto o preço médio apurado na venda de 41 animais BRGN classificados como comerciais foi de R$ 5.304,88 por cabeça. A diferença, equivalente a R$ 6.110,38 por animal, representa um ágio genético global de 115,2% em relação aos bovinos comerciais.
Os 28 touros Nelore PO BRGN foram vendidos pelo preço médio de R$ 11.326,43 por cabeça, enquanto os 14 machos comerciais obtiveram média de R$ 5.857,14 por cabeça. Assim, a valorização dos reprodutores PO sobre os comerciais foi de 93,4% ou R$ 5.469,29 a mais por animal. Já as 10 matrizes Nelore PO BRGN foram arrematadas pela média de R$ 11.664,00 por cabeça, ao passo que as 27 fêmeas comerciais foram vendidas a R$ 5.018,52 por cabeça. O ágio genético das fêmeas PO sobre as fêmeas comerciais foi de 132,4% ou R$ 6.645,48 a mais por cabeça.
Todos os animais PO foram genotipados (ou seja, a composição do DNA foi avaliada em laboratório) e submetidos a avaliações genéticas chanceladas pelos Programas da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), Genética de Melhoramento Animal (GMA) da Universidade de São Paulo e de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ) da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Além disso, cada um deles recebeu pelo menos um dos selos de qualidade genética BRGN, que atestam destaque para as principais características de interesse dos criadores – precocidade sexual, fertilidade, habilidade materna, ganho de peso e carcaça.
Entre os destaques dos machos Nelore PO, o BRGN 2174 foi o animal mais valorizado, tendo sido arrematado por R$ 16.800,00. O touro mocho recebeu o selo de qualidade BRGN em peso, o que representa maior potencial genético para ganho de peso nas diferentes fases de criação. O segundo maior valor individual foi de dois touros, sendo R$ 14.400 por cabeça: O BRGN 2222 (padrão) e o BRGN 2205 (mocho), que receberam selos de qualidade em peso, precocidade sexual (mérito genético para expressão precoce da puberdade) e carcaça (destaque para características relacionadas à composição de carcaça e terminação). Outro destaque foi o BRGN 2159 (padrão), com os selos de qualidade em peso e carcaça, vendido por R$ 13.440,00.
As principais fêmeas PO destaques compuseram um lote duplo arrematado por R$ 35.520,00: BRGN 2139 da Cerrados e BRGN 2217 da Cerrados, ambas prenhas e com previsão de parto em novembro deste ano. As novilhas padrão receberam os selos de qualidade em fertilidade (mérito genético superior para eficiência reprodutiva e fertilidade), carcaça, peso e habilidade materna (destaque genético para características maternas, com potencial para produzir filhos com melhor desempenho na fase pré-desmama). Outro lote duplo também foi destaque, sendo vendido por R$ 26.880,00. As novilhas PO mochas BRGN 2005 da Cerrados e BRGN 2076 da Cerrados, também prenhas e com previsão de parto em novembro e dezembro, respectivamente, foram agraciadas com os selos BRGN de qualidade para habilidade materna, carcaça e peso.
O pesquisador Cláudio Magnabosco observa que houve valorização tanto dos animais mochos como padrão: “Isso mostra que o mercado está aberto para as duas variedades, desde que se tenha qualidade genética e funcional”. As fêmeas PO mais valorizadas são as que apresentam histórico de reprodução e de avaliação. “Além da avaliação genética, a parte funcional delas foi muito atrativa. São animais muito femininos e com características indubitavelmente de boas mães, como as reprodutivas e de produção de leite”, lembra. Já o desempenho dos touros PO no leilão foi associado às fortes características como reprodutores.
Durante o atendimento aos interessados em obter mais informações sobre os animais ofertados, o pesquisador detectou como principais interesses dos criadores a harmonia das avaliações genéticas, aspectos produtivos e a funcionalidade. No caso dos touros, um critério destacado foi se os animais já haviam sido utilizados como reprodutores, seja como repasse ou na produção de animais comerciais; quanto às fêmeas, o histórico reprodutivo e o motivo da disponibilização da genética foram os principais fatores decisivos de escolha.
Magnabosco salienta que o trabalho desenvolvido pela Embrapa com o sistema de produção é realístico, baseado nas condições do Bioma Cerrado, indicando que esses animais terão boa performance nas fazendas sem sentirem mudanças de ambiente, já que nunca foram criados com artificialismos. “Ao adquirir um touro PO desses para a estação de monta, por exemplo, o criador sabe que terá um excelente produtor de bezerros comerciais e com a possibilidade de produzir fêmeas para reposição, que é outro objetivo que percebi bastante entre os interessados”, revela.
Mesmo os animais comerciais, na avaliação do pesquisador, foram valorizados devido ao bom desempenho nas avaliações zootécnicas. “Podemos dizer que o mercado está buscando um animal que tenha desempenho excepcional, com ótima velocidade de crescimento e atributos reprodutivos como perímetro escrotal e velocidade de crescimento e terminação da carcaça verificadas pela área de olho de lombo, pelo rendimento e pelo acabamento. Esse animal também deve ter um consumo negativo, ou seja, vai consumir menos que o predito, sendo mais eficiente e capaz de contribuir para o sucesso do produtor, ajudando a diminuir os custos de produção da fazenda”, analisa.
Para Magnabosco, quando o produtor compra um touro Nelore BRGN provado, está agregando, basicamente, aquilo que paga as contas da fazenda: quilos de bezerro desmamado por ano fiscal. Ele acrescenta que os reprodutores da marca Embrapa vão produzir fêmeas com boa produção de leite, fertilidade e potencial de crescimento.
“Se o produtor trabalha com cria, terá excelentes resultados nos bezerros produzidos: os machos para venda e as fêmeas para reposição. E se ele trabalha com o ciclo completo, vai produzir bois comerciais que, se forem terminados com pasto de qualidade, estarão prontos para o abate até os 30 meses, em consonância com o que se preconiza na moderna pecuária de corte no Brasil e proporcionando giro e retorno rápidos ao bolso do produtor”, conclui.
Novilhas Gir Leiteiro e Sindi provadas são destaques no leilão do CTZL
No leilão on-line do CTZL, foram comercializados 122 bovinos, sendo 48 PO das raças Gir Leiteiro (marca BRGY) e Sindi (marca BRGF), além de 74 animais comerciais (sem registro dessas raças e mestiços. Em valores globais, os animais PO foram vendidos pelo preço médio de R$ 4.651,21, enquanto os comerciais obtiveram média de R$ 3.652,88 por cabeça – uma diferença de 27,33% ou ágio absoluto de R$ 998,33 por animal.
O valor médio dos 44 animais Gir Leiteiro PO foi de R$ 4600,64, sendo 10,27% maior que o valor médio dos 19 Gir Leiteiro comerciais (R$ 4.172,16), o que representa um ágio genético de R$ 428,48 por cabeça. Na raça Sindi, os quatro animais PO obtiveram preço médio de R$ 5.207,50 contra R$ 3.994,57 de média dos sete Sindi comerciais – diferença de R$ 1.212,93 ou 30,36% por cabeça. Os 48 mestiços comerciais foram arrematados por uma média de R$ 3.397,50 por cabeça.
Segundo o pesquisador Carlos Frederico Martins, os principais destaques do leilão – Gir Leiteiro BRGY 218 Jalde da Cerrados, arrematada por R$ 8.490,00, e Sindi BRGF 27 Índia, vendida por R$ 8.280,00 – são novilhas prenhas que que foram inseminadas para participarem da 12ª Prova de Brasileira de Produção de Leite a Pasto do Zebu Leiteiro do CTZL, a partir de dezembro deste ano (informações e inscrições aqui), caso os compradores assim desejarem. A prova seleciona, a pasto, as matrizes contemporâneas que se destacam nos índices zootécnicos: produção de leite, reprodução, idade ao parto, qualidade do leite, persistência de lactação e avaliação morfológica.
Outras três fêmeas Gir Leiteiro PO prenhas bastante disputadas no leilão têm valor genético comprovado por avaliações zootécnicas. Comercializada por R$ 8.390,00, a novilha BRGY 194 Inglaterra do CTZL foi a quarta colocada da raça na 10ª Prova de Leite a Pasto do CTZL, realizada entre 2024 e 2025. O animal tem habilidade provável de transmissão para produção de leite (PTA Leite) de 667,34 Kg no programa PMZ Leite da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), ou seja, sua progênie (filhas) tem, em média, um potencial esperado de incrementar 667,34 Kg na produção de leite (por lactação), sendo superior à média de todas as vacas avaliadas pelo programa de melhoramento genético. O PTA Leite é o principal índice que mede o valor genético de um bovino leiteiro. Além disso, a BRGY 194 Inglaterra do CTZL tem produção média de leite de 3480,2 Kg (durante 305 dias de lactação), medida pela ABCZ na sua primeira lactação
Apesar de não ter sido incluída na 10ª Prova de Leite a Pasto do CTZL, a novilha BRGY 174 Itália da Cerrados foi acompanhada em paralelo à avaliação zootécnica, tendo sido submetida às mesmas mensurações. O PTA Leite de 543,12 Kg e a produção média de leite de 4030,9 Kg na primeira lactação chamaram a atenção dos participantes do leilão, e o animal foi arrematado por R$ 8.240,00. “Essa novilha teve uma ótima lactação. Se tivesse sido incluída na Prova, teria ficado em segundo lugar na raça Gir Leiteiro”, lembra Martins.
Também vendida por R$ 8.240,00, a vaca BRGY 109 Gilda da Cerrados apresenta PTA Leite de 430,39 Kg e produção média de leite de 3.888,6 Kg. Ela é doadora de embriões do CTZL e, assim como os dois principais destaques do leilão, também foi inseminada e já poderá deixar um produto de qualidade para o criador, segundo Martins.
“Essas novilhas foram os destaques no leilão porque tinham avaliação genética e avaliação fenotípica de produção de leite. Por se mostrarem bem completas nessas avaliações, alcançaram os melhores preços”, comenta o pesquisador.
Ele explica que os criadores têm buscado fêmeas PO avaliadas pela ABCZ, tanto quanto à questão fenotípica (produção de leite) como o pedigree (pais dos animais), que está associado à avaliação genética. Outro aspecto importante é o status reprodutivo, uma vez que a preferência é por animais com prenhez confirmada. No caso dos machos PO, a informação genética, o pedigree informado pela ABCZ e o status reprodutivo (presença de filhos na propriedade e exame andrológico em dia) também são critérios decisivos de escolha.
Nesse sentido, o pesquisador acredita que há uma sintonia entre a evolução dos animais do CTZL, sobretudo nas raças Gir Leiteiro e Sindi, e o perfil genético que o mercado demanda. “Temos buscado aumentar a avaliação genética e, consequentemente, tem se confirmado na avaliação fenotípica, na produção de leite”, afirma, acrescentando que o “termômetro” do trabalho de melhoramento genético é a Prova de Leite a Pasto.
“Nossos animais são rústicos e estão sempre bem localizados no contexto da Prova. Queremos compará-los a outros animais de todo o Brasil, o que nos fornece informações importantes. O foco não é ganhar a Prova”, diz, citando o caso da novilha BRGY 174 Itália da Cerrados, uma das mais valorizadas no leilão.
Da mesma forma, segundo Martins, na Prova os criadores querem saber como está o seu sistema de criação e a seleção dos animais em relação à média geral da produção das outras novilhas contemporâneas concorrentes.
Quanto ao último leilão, ele aponta que a grande diferença de preços entre os animais PO e comerciais, especialmente as fêmeas, normalmente mais procuradas, se deve principalmente à seleção feita pela Embrapa Cerrados, sem artificialismos, a pasto, com suplementação na seca e sem indutores de lactação ou animais estabulados.
“É o que os produtores procuram. No leilão, além de valorizar a nossa genética, buscamos democratizá-la, principalmente para os pequenos criadores, tanto que no valor inicial dos animais não atribuímos o valor genético. Deixamos a ampla concorrência acontecer, e ela evoluiu bem nos lances pelos animais PO”, acrescenta.
O pesquisador lembrou, ainda, que muitos dos animais comerciais ofertados são Girolando de origem conhecida – filhas de fêmeas Gir PO e touros da raça Holandês. Porém, por serem Girolando, ainda não são registrados pelo CTZL. “Nossa estratégia, nos próximos anos, é fazer a nossa genética Girolando e iniciar o registro genealógico desses animais na Associação Brasileira dos Criadores de Girolando. Assim, eles se tornarão POs Girolando”, informou.
Martins ressalta que quando o criador arremata animais da marca Embrapa (Gir Leiteiro BRGY e Sindi BRGF), está adquirindo bovinos criados totalmente a pasto, com valor genético para produção de leite e com baixa endogamia, ou seja, os pais não têm ancestrais em comum, o que garante maior diversidade genética. “Usamos os principais touros que estão despontando nos testes de progênie e buscamos acasalamentos de alta produção de leite, mas com baixa endogamia, para que os criadores possam fazer os acasalamentos (dos descendentes) de forma ampla por muitos anos”.
Outro ponto destacado é a avaliação não seletiva dos animais do CTZL – todos são avaliados pela ABCZ ou internamente. Segundo o pesquisador, as informações geradas são incluídas na base de dados da Associação, sendo fundamentais para o melhoramento genético por permitirem uma visão realista do rebanho.
O pesquisador também salienta a avaliação genômica dos animais Sindi, a exemplo do que ocorre com os bovinos Gir Leiteiro. “Hoje, temos o primeiro rebanho Sindi no Brasil totalmente genotipado para produção de leite e idade ao primeiro parto. Nossas fêmeas jovens já têm valor genômico, o que nos ajuda a fazer o melhoramento genético, pois elas podem ser acasaladas com touros de alta produção”, disse.
“O
criador que compra nossos animais tem a certeza de que temos um olhar
clínico e científico do melhoramento genético, entregando uma genética
de qualidade e testada geneticamente, genomicamente ou fenotipicamente.
Procuramos associar todas as formas de seleção”, afirma, argumentando
que o controle leiteiro oficial, aliado a ferramentas como a genômica, é
a melhor forma de gerar animais superiores.
Por Breno Lobato
