Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - CNE acerta ao transformar divergência regulatória em debate público = Janguiê Diniz
Em mais uma decisão acertada, o Conselho Nacional de Educação (CNE) decidiu submeter à consulta pública a definição dos percentuais de presencialidade dos cursos de licenciatura ofertados no formato semipresencial. A medida representa um gesto de maturidade institucional e compromisso democrático com a construção das políticas públicas educacionais.
Em
um cenário marcado por intensas transformações regulatórias, ouvir a
sociedade, as instituições de educação superior, especialistas,
entidades representativas e os próprios profissionais da educação é não
apenas prudente, mas essencial para a construção de diretrizes
equilibradas, viáveis e coerentes com a realidade brasileira.
A medida ganha ainda mais relevância quando observamos o contexto recente de reorganização da política nacional de educação a distância. O Decreto nº 12.456, de 19 de maio de 2025, promoveu mudanças profundas na organização dos formatos educacionais. Entre elas, a vedação de oferta integralmente a distância para as licenciaturas e a definição de 40% de presencialidade para os cursos semipresenciais.
Contudo,
as atuais Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para a formação
inicial de professores estabelecem outros parâmetros. Enquanto o novo
marco regulatório da EAD passou a trabalhar com a lógica do formato
semipresencial estruturado a partir de percentuais mínimos de atividades
presenciais e síncronas mediadas, a regulamentação das licenciaturas
exige 50% de presencialidade, criando um descompasso normativo que gera
insegurança jurídica e dúvidas operacionais para as instituições de
ensino.
Nesse contexto, a iniciativa do CNE de abrir consulta pública demonstra disposição para construir convergência regulatória. Mais do que um debate sobre números, a expectativa é de que o processo resulte no alinhamento de duas políticas públicas. Esta é uma medida relevante, ainda que o decreto reconheça a sobreposição das DCNs em situações de divergência.
Por
isso, é falaciosa a narrativa de que o Decreto nº 12.456/2025
enfraqueceu a formação docente. Pelo contrário. O texto buscou
consolidar uma política de educação a distância orientada pela qualidade
acadêmica, pela valorização da docência e pelo fortalecimento das
experiências formativas presenciais e síncronas. Trata-se de um
posicionamento essencial para assegurar qualidade sem ignorar a
diversidade territorial, social e econômica do Brasil.
Cabe ressaltar que alterações em percentuais de presencialidade produzem impactos concretos sobre acesso, permanência e sustentabilidade da oferta educacional. Um aumento excessivo das atividades presenciais pode dificultar o ingresso e a continuidade de milhares de estudantes que vivem longe dos grandes centros urbanos, trabalham em tempo integral ou dependem da flexibilidade proporcionada pela educação mediada pela tecnologia. Ao mesmo tempo, é legítima a preocupação com a necessidade de experiências práticas, interação pedagógica qualificada e fortalecimento da identidade docente durante o processo formativo.
Por
isso, a consulta pública se apresenta como um caminho adequado. Ela
permite que o debate saia do campo das disputas ideológicas
simplificadas e avance para uma discussão técnica, baseada em
evidências, experiências institucionais e compreensão das diferentes
realidades do país. A formação de professores é complexa demais para ser
conduzida a partir de decisões unilaterais ou construídas sem ampla
escuta social.
Outro aspecto positivo consiste no reconhecimento de que políticas educacionais precisam ser harmônicas. O Brasil viveu, nos últimos anos, diversas alterações regulatórias no campo da educação superior. Muitas vezes, essas mudanças foram implementadas sem a devida articulação entre decretos, portarias, diretrizes curriculares e instrumentos de avaliação. O resultado foi um ambiente de instabilidade regulatória que dificultou o planejamento institucional e gerou insegurança jurídica para o setor educacional.
Também
merece destaque o fato de que a própria abertura da consulta pública
reforça o papel do Conselho Nacional de Educação como instância de
mediação qualificada entre governo, sociedade e sistema educacional. Em
tempos de polarização e radicalização de debates, optar pela escuta e
pela construção coletiva representa uma maturidade institucional
importante. Não se trata de abrir mão da regulação, mas de fortalecê-la a
partir da legitimidade do diálogo.
A educação brasileira precisa superar a lógica das falsas dicotomias. Presencialidade e tecnologia não são conceitos incompatíveis. Qualidade e flexibilidade também não. O desafio contemporâneo consiste exatamente em construir modelos híbridos capazes de combinar experiências formativas robustas, acompanhamento pedagógico efetivo, desenvolvimento de competências profissionais e ampliação do acesso educacional.
Nesse sentido, a consulta pública promovida pelo CNE deve ser celebrada não apenas pelo seu conteúdo imediato, mas pelo método adotado. Escutar antes de decidir é sempre um sinal positivo. Especialmente quando se trata de um tema tão sensível quanto a formação dos futuros professores brasileiros.
Janguiê Diniz - Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular, fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional, presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group
