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ARTIGO - O que a medicina não resolve sozinha = Por: Dr. Mário Santoro Júnior
Há um equívoco persistente na forma como entendemos a saúde. Ainda se imagina que ela se rompe em um momento específico, após um diagnóstico inesperado. Na prática, porém, ela vai sendo comprometida lentamente ao longo dos anos. O que chamamos de doença, muitas vezes, é apenas a parte visível de um processo já em curso.
No consultório, isso aparece com frequência. O exame surge discretamente alterado, o cansaço deixa de ser pontual, o sono perde a qualidade, o peso muda sem explicação aparente. Isoladamente, esses sinais raramente causam alarme. Em conjunto, no entanto, revelam algo mais profundo.
A medicina dispõe hoje de evidências suficientes para mostrar que não se trata de acaso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que as doenças crônicas não transmissíveis sejam responsáveis por cerca de 74% das mortes no mundo, impulsionadas, em grande parte, por fatores modificáveis. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que uma expressiva parcela da população adulta convive com ao menos uma condição crônica. O cenário não se explica apenas pelo envelhecimento, mas também pela forma como a vida tem sido organizada.
A rotina contemporânea tornou-se, em muitos casos, um agente silencioso de adoecimento. Jornadas prolongadas, múltiplas demandas e a dissolução das fronteiras entre trabalho e descanso alteram profundamente o funcionamento do corpo. Dorme-se menos, alimenta-se de forma irregular, permanece-se em estado de alerta por tempo prolongado.
O mecanismo é conhecido. A exposição contínua ao estresse mantém elevados os níveis de cortisol, interfere na regulação metabólica e sustenta um estado inflamatório persistente. O problema é que esse processo não se manifesta imediatamente. Ele se acumula, muitas vezes sem ser percebido, até que o organismo deixa de compensar.
É nesse contexto que a alimentação entra, não como causa isolada, mas como parte de um sistema. Uma pesquisa recente do UNICEF mostra como fatores sociais têm levado muitas famílias ao consumo frequente de alimentos ultraprocessados. O dado é revelador: quando o tempo é escasso, a renda é limitada e a rotina é instável, a escolha tende a ser guiada pelo que é possível e não necessariamente pelo que seria ideal.
Do ponto de vista fisiológico, esse padrão favorece picos repetidos de glicose e exige respostas constantes de insulina. Ao mesmo tempo, a baixa ingestão de fibras e o consumo elevado de aditivos interferem na microbiota intestinal, favorecendo um estado inflamatório associado a diversas doenças.
O ambiente amplia esse quadro de forma decisiva. A poluição do ar, frequentemente tratada como um efeito colateral inevitável da vida urbana, é hoje um dos principais determinantes de doenças evitáveis. A OMS aponta que cerca de 7 milhões de mortes prematuras por ano estejam associadas à exposição a poluentes atmosféricos, sobretudo por doenças cardiovasculares, respiratórias e câncer.
A forma como as cidades são organizadas também interfere diretamente na saúde. Menos áreas verdes, mais ruído, deslocamentos longos e desgastantes. Esse conjunto afeta o sono, eleva o estresse e reduz as oportunidades de movimento ao longo do dia.
Há ainda uma exposição contínua, pouco percebida, a resíduos e substâncias químicas presentes em produtos de uso diário. Plásticos, solventes e compostos industriais formam um grupo de agentes que, ao longo do tempo, podem interferir no sistema endócrino. Estudos vêm associando essa exposição a distúrbios hormonais, infertilidade e alterações metabólicas.
A pobreza atravessa todos esses fatores e amplifica seus efeitos. Ela limita o acesso a alimentos de melhor qualidade, restringe possibilidades de lazer e atividade física em ambientes seguros, dificulta o acompanhamento regular em saúde e aumenta a exposição a condições ambientais adversas. Não se trata apenas de renda, mas de um conjunto de condições que molda o risco ao longo da vida.
Diante disso, a prevenção deixa de ser uma recomendação e passa a ter um papel mais concreto. O acompanhamento regular não serve apenas para identificar doenças precocemente, mas para reconhecer padrões que refletem esse modo de vida. Hipertensão em adultos jovens, distúrbios do sono, quadros persistentes de ansiedade e exaustão já não podem ser tratados como exceção. São sinais de um organismo submetido à pressão contínua.
Ainda assim, há um limite claro. Nenhuma orientação individual se sustenta por muito tempo quando o ambiente empurra na direção contrária. É difícil manter uma alimentação equilibrada sem acesso regular a alimentos frescos, assim como é pouco viável recomendar descanso adequado em rotinas que não comportam pausas.
Isso não elimina o papel das escolhas individuais, mas as coloca dentro de uma realidade mais complexa. Pequenos ajustes, quando possíveis e sustentáveis, fazem diferença.
A saúde não começa no diagnóstico e tampouco se resolve apenas no tratamento. Ela é construída, ou comprometida, no cotidiano, nas condições de vida e nas decisões que organizam a sociedade.
Talvez a principal mudança de que ainda precisamos seja reconhecer que saúde não é apenas uma responsabilidade pessoal. Ela é, em grande medida, um resultado coletivo. Depende das condições de trabalho, da qualidade do ar, da organização das cidades e das escolhas que fazemos enquanto sociedade.
Enquanto insistirmos em tratar como individual aquilo que é, em essência, estrutural, continuaremos lidando com as consequências no consultório, tentando corrigir, caso a caso, um processo que segue sendo produzido todos os dias.
Dr. Mário Santoro Júnior - Médico Pediatra e Gerente de Desenvolvimento Institucional do CEJAM.
