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ARTIGO - Entre templos egípcios e silêncios sagrados: a história de Dorothy Eady = Por Tânia Lins
A sala de aula, refúgio na infância, já não delimitava fronteiras; o mundo tornara-se seu território de aprendizado. Ainda assim, a voz da antiga mestra seguia intacta, atravessando o tempo para encorajar a menina que não desistira de voar. Alguns saberes estavam adormecidos na memória, mas continuavam a pulsar no coração da aprendiza, que ousara transformar o querer em realidade.
Ela sabia que realizar sonhos juvenis era conectar-se com um eu que se atreveu a desejar, que não desistiu, contrariando qualquer pessimismo disfarçado de realidade. Estar ali era entender que suas escolhas a levaram para o destino do seu coração: a terra dos faraós.
O Egito não se mostra de uma só vez; ele se oferece aos poucos, como quem põe à prova a disposição de quem chega lá. Há uma poeira antiga que não paira apenas sobre as pedras, mas também sobre o olhar. Um desejo de explorar algo milenar, pisar nas areias que velaram tesouros por milênios, até que pudessem ser novamente contemplados. Caminhar entre templos e colunas é perceber que ali o tempo não avança em linha reta; ele circula, retorna, insiste, persiste, revela-se.
Ela também era assim: desafiadora, resiliente, persistente. “Mulheres são assim”, concluiu, convicta. Permitiu-se, então, revisitar suas memórias intituladas “desbravadoras notáveis” e, entre elas, encontrou a inspiradora Dorothy Louise Eady.
Sim, ela desafiou o mundo. Nascida em 1904, em Londres, Dorothy foi uma das mulheres mais notáveis do século XX. Sua infância foi marcada por episódios nada convencionais. Aos três anos, ao cair de uma escada, foi declarada morta, contudo, minutos depois, despertou sem sequelas. A partir desse incidente, ela passou a descrever um edifício com colunas e jardins, além de símbolos e paisagens do Egito Antigo — fatos que se repetiram com o passar dos anos.
Aos dez anos, frequentava com assiduidade o Museu Britânico, o que despertou a atenção do curador de antiguidades egípcias do local, Sir Ernest Alfred Thompson Wallis Budge, que, impressionado com os conhecimentos da garota, a ensinou a ler hieróglifos — habilidade que ela desenvolveu com rapidez incomum e intuitiva, como se decifrasse um código já conhecido. Conforme a menina crescia, seu interesse pela terra dos faraós — algo que olhos desatentos julgariam como fantasia infantil — revelou-se uma vocação singular e obstinada que desafiaria o ceticismo acadêmico.
Talentosa, Dorothy cursou, anos depois, desenho na Escola de Artes de Plymouth, no Reino Unido, tornando-se uma ilustre desenhista, o que foi fundamental para o trabalho de documentação arqueológica que ela desenvolveria posteriormente. Atuou também como escritora, destacando-se na produção de artigos, livros, ensaios e monografias.
Aos 27 anos, trabalhou em uma revista egípcia, escrevendo artigos e criando ilustrações em prol da emancipação do Egito do domínio britânico, assumindo uma postura corajosa e desafiadora ao defender a causa egípcia pelo direito do Egito contemporâneo à soberania.
Na década de 1930, ao casar-se com o egípcio Emam Abdel Meguid, Dorothy mudou-se para o Egito, onde teve um filho — a quem insistiu em dar o nome de Seti, em homenagem ao faraó Seti I, o que a levou a adotar a alcunha “Om Seti” (que significa “Mãe de Seti”, em árabe). Após o fim do seu casamento, que durou cerca de dois anos, ingressou no Departamento de Antiguidades do Egito, tornando-se a primeira funcionária do sexo feminino a atuar no local.
Dorothy não foi simplesmente uma admiradora do Egito; ela se permitiu pertencer ao país, debruçando-se nas narrativas de uma das civilizações mais inspiradoras da humanidade. Sem credenciais acadêmicas, construiu seu saber a partir de um olhar analítico e da convivência diária com templos e símbolos egípcios — algo inimaginável, levando-se em conta que se tratava de uma mulher estrangeira e sozinha em um país islâmico.
Também trabalhou ao lado de grandes egiptólogos, reparando em detalhes que escapavam a muitos especialistas formados. Selim Hassan, professor de Egiptologia na Universidade do Cairo, incluiu agradecimentos especiais pela edição, ilustração e revisão técnica de Dorothy nos dez volumes de sua obra Excavations at Giza.
Dorothy Eady era uma desbravadora e sua alma ansiava por mais, como se seguisse um chamado único e inaudível aos demais. Havia algo ainda a ser desvendado, desenterrado e protegido. Ela não sabia o que a esperava, mas isso não a amedrontava. Sua determinação a conduziu até Abidos, um território a cerca de quinhentos quilômetros do Cairo.
E então a revelação: ela pertencia àquele local — na vida e na morte. Ali era seu verdadeiro lar. Dorothy atuou diretamente na reconstrução do Templo de Seti I, localizado no vilarejo, compartilhando com a equipe de arqueologia seu conhecimento profundo sobre os hieróglifos, decifrando inscrições fragmentadas e recompondo informações que se perderam com o tempo e a destruição do monumento. Mais do que “ler” signos, ela compreendia a lógica arquitetônica da construção — consagrada ao deus Osíris —, reconhecendo cada pedaço daquele solo sagrado.
O mundo, contudo, sempre tentou desencorajar as mulheres, e com Om Seti não foi diferente. Em decorrência de seus relatos sobre memórias de uma possível encarnação passada, na qual teria sido uma sacerdotisa egípcia — acontecimentos que estão além do entendimento de muitos e que a ciência convencional despreza —, foi rotulada muitas vezes de lunática e excêntrica. Não há, contudo, como provar que sua história não seja verdadeira.
Para além dessa aura de mistério, Dorothy foi uma figura notável, que viveu suas verdades ocupando espaços negados às mulheres, sobretudo em um campo masculino como a egiptologia. Ela sabia das coisas: acreditou nos seus sonhos e fez deles seu propósito. Nela, a razão nunca se sobrepunha à intuição; ambas caminhavam lado a lado, trazendo a clareza do raciocínio lógico e a potência do sentir. Ali, em Abidos, ela escolheu viver, pertencer, fincar raízes após transpor fronteiras culturais e sociais. Firmando-se na história como uma verdadeira guardiã da eternidade, Dorothy faleceu em 1981, aos 77 anos.
A voz do guia trouxe a mulher de volta à realidade. Para além do conhecimento acadêmico, compreendia de fato Dorothy Eady. A imagem da dupla coroa do faraó lhe veio à mente. Nela, a cobra simbolizava a astúcia, a vigília, a proteção; o abutre expressava o olhar amplo, capaz de enxergar além. Assim também foi Dorothy: atenta aos detalhes, como a serpente; dotada de argúcia, como o abutre. Removendo areias e obstáculos, amparada pela certeza dos destemidos, ela soube preservar o passado egípcio com lucidez, honra e lealdade. Maktub.
Tânia Lins é bacharel em Administração de Empresas, licenciada em Letras e pós-graduada em Língua Portuguesa e Comunicação Empresarial e Institucional. Há mais de quinze anos atua no mercado editorial, reunindo experiência profissional e acadêmica em edição, preparação e revisão de textos, gerenciamento de produção editorial, leitura crítica e análise literária. Atualmente, é coordenadora editorial na Editora Vida & Consciência, conduzindo projetos com precisão, visão estratégica e compromisso com a qualidade.
