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ARTIGO - O eco de Bad Bunny e a menopausa brasileira que samba, tem identidade e se faz ouvir = Por Fabiane Berta
Há poucos dias, um artista latino subiu ao palco em Los Angeles e fez algo raro em tempos de adaptação permanente: não se traduziu. Bad Bunny recebeu o Grammy de Álbum do Ano cantando integralmente em espanhol e, diante de uma plateia global, reafirmou sua identidade sem suavizar a origem ou pedir licença para existir.
A força daquela cena ultrapassou a música, falava sobre pertencimento e ocupar espaço com a própria identidade sendo reconhecido por isso. Enquanto assistia, pensei nas mulheres que atendo todos os dias. Pensei na menopausa brasileira, que há décadas tenta caber em protocolos que não nasceram aqui.
A menopausa, no Brasil, também tem sotaque e, ainda assim, segue frequentemente tratada como se fosse universal, homogênea, intercambiável.
Somos 104 milhões de mulheres. Cerca de 30 milhões atravessam o climatério neste momento. A maioria absoluta da população feminina do País viverá essa transição. Ainda assim, muitas percorrem esse período sozinhas, entre consultas apressadas e explicações simplificadas demais.
Há quem acorde de madrugada com o corpo encharcado de suor e conclua que algo está errado. Há quem perca uma palavra durante uma reunião e sinta que perdeu também a própria segurança. Há quem chore no trânsito, se irrite sem motivo aparente, sinta o desejo diminuir e carregue culpa por isso. E há, sobretudo, quem ouça que “é assim mesmo” e volte para casa sem orientação.
A experiência da menopausa não é idêntica no Norte amazônico, onde o calor ambiental se mistura aos fogachos, nem no Sul, onde o frio contrasta com ondas súbitas de calor interno. Não é igual no sertão nordestino, onde o acesso à informação ainda é desigual, nem nas grandes capitais do Sudeste, onde a sobrecarga profissional e familiar intensifica sintomas como insônia e ansiedade.
Genética, clima, alimentação, renda, acesso a serviços de saúde e carga de trabalho moldam essa vivência. Ainda assim, grande parte do conhecimento científico que orienta condutas clínicas foi produzida a partir de populações do hemisfério norte, com realidades distintas da nossa.
Durante anos, importamos protocolos, traduzimos diretrizes, adaptamos condutas. Pouco investigamos a fundo como a mulher brasileira, com sua diversidade étnica, cultural e socioeconômica, atravessa essa fase.
Defendo que a menopausa no Brasil precisa ser estudada em português, com dados nacionais, escuta qualificada e recorte regional. Mapear sintomas, impactos cognitivos, alterações de humor, sexualidade, qualidade do sono e efeitos metabólicos a partir da realidade local não é um capricho identitário, e sim uma questão de saúde pública.
Escutar mulheres do Oiapoque ao Chuí significa reconhecer que o corpo feminino não é um conceito abstrato. Ele trabalha, cuida, produz renda, sustenta famílias, lidera empresas, ocupa cargos públicos. Quando esse corpo sofre sem assistência adequada, toda a sociedade sente.
O carnaval começa nesta semana e a metáfora é inevitável. A avenida é o espaço onde o Brasil se apresenta como é plural, intenso, diverso. Nenhuma escola de samba pede que seus integrantes deixem o sotaque em casa.
Talvez devêssemos fazer o mesmo com a menopausa. Se o suor escorrer, que não seja apenas motivo de constrangimento. Se a memória falhar, que isso não se converta em estigma. Se o corpo pedir pausa, que haja legitimidade nesse pedido.
A menopausa brasileira não precisa ser traduzida, ela tem sotaque. Neste Carnaval, ela samba, não para ser explicada, mas para ser reconhecida, acolhida e compreendida. Maioria não se adapta em silêncio. Maioria se faz ouvir.
Fabiane Berta é médica e pesquisadora (CRMSP 151.126), integrante do Science Medical Team – OB-GYN Specialist. É mestranda no setor de Climatério | Menopausa e pesquisadora adjunta no setor da Endometriose | Dor pélvica pela UNIFESP. Possui pós-graduação em Endocrinologia, Neurociências e Comportamento. É fundadora do MyPausa, iniciativa que propõe um registro nacional da menopausa nos 27 estados do Brasil para promover uma reforma na saúde feminina, com foco em acessibilidade a tratamentos atualizados e respeito à diversidade regional. Atua como PI sub e chefe do Steering Committee do Estudo MyPausa (Science Valley) e como coordenadora da Saúde Feminina para a Arnold Conference 2026.
